em busca do tempo perdido, a monumental obra de marcel proust foi escrita entre 1908 e 1922. nela encontramos uma narrativa encharcada de remissões de tempos fugidios, em que salões de festas, ações políticas, valores morais e sexuais, hábitos cotidianos e concepções artísticas já não correspondiam às novas expectativas que rompiam com a chegada do século que principiava. proust coloca na boca de seu narrador inúmeras e profundas reflexões sobre os impactos de tais mudanças na vida dos franceses de então.
desde proust, no transcorrer do século 20, a humanidade tem passado por transformações tão radicais quanto imprevisíveis. evidentemente, mesmo antes, desde quando os humanos resolveram descer das árvores e andar sobre a terra, o planeta inteiro tem assistido as modificações causadas por nossa presença. ao longo dessa história, no entanto, a alguns momentos coube o antropônimo de revolução. a mais recente delas acontece justamente no decorrer do século passado, no entremeio entre o momento em que marcel proust procurava seu tempo perdido dentro de uma única xícara de chá e a posterior época da juventude de zygmunt bauman, o qual vivenciaria uma polônia cujos sortilégios trazidos ao longo do século, mudaria radicalmente seu destino.
assim, zygmunt bauman assistiu a modernidade se transformar. desde a infância deste sociólogo, a modernidade, com seus valores centrados na crença da ordem e da infabilidade da ciência e da racionalidade, sustentadas pela ordenação produtiva que continha os ideais do desenvolvimento, do progresso iluminista, capitalista e laico, a modernidade e sua solidez catedrática, previsível, organizada, em um dado momento do século 20 se transformou radicalmente.
é justamente essa transformação que bauman quer compreender.
na internet está disponível um vídeo no qual esse simpático senhor de 86 anos, sentado em uma poltrona confortável, ladeado de livros, direto de sua casa em londres, no inverno de 2011, fala ao brasil. apesar da voz por vezes um tanto quanto fraca, denotando o peso de sua idade, com bastante lucidez, ele faz uma profunda reflexão de uma época que não existe mais, remetendo-se a exemplos de a sua infância e juventude em uma europa já praticamente esquecida, cujas formas de vida, valores e saberes, nós, habitantes do mundo atual, praticamente ignoramos.
convidado pelo fronteiras do pensamento, bauman apresenta na entrevista gravada, algumas reflexões que vêm atravessando toda a sua vasta obra onde conceitua a atual fase da história como pós-moderna. suas análises abordam as radicais mudanças ocorridas na condição social ao longo do século 20, na medida em que as bases de uma sociedade de produção abriram espaço para a criação de uma sociedade de consumo. por outro lado, aborda também o processo de fragmentação da vida, característica intrínseca dessa nova era. agora, chamamentos existencialistas como o do filósofo francês jean paul sarte, nos idos anos da juventude de bauman o qual requisitara que cada um dos humanos tomasse as rédeas do próprio destino, assegurando o projet de la vie, o projeto de vida, construído sistemática e processualmente, ano a ano; essa idéia já não impressionaria os jovens de hoje, pelo contrário. atualmente temos dificuldade de projetarmos qualquer expectativa futura. a vida agora é dividida em episódios: não podemos saber o que nos acontecerá num intervalo curto de tempo, quanto mais programar uma vida inteira.
as sociedades foram individualizadas, perdemos assim a concepção de pertencimento a grupos sociais, comunidades, movimentos políticos. tendemos a redefinir o significado e os propósitos de nossas vidas, a felicidade pretendida, como algo individual, pessoal, daí a crescente importância da identidade como categoria fundamental no mundo de hoje. a identidade criada e constantemente recriada por cada indivíduo.
neste mundo pós-moderno, somos apresentados a um contexto diverso daquele vivido por bauman na sua infância e também do rememorado por proust, agora conflitos eclodem em várias áreas. o mal estar na nossa civilização é esgarçado por questões políticas, econômicas, por exemplo, através das quais assistimos à mutação da democracia, cada vez mais globalizante, cada vez menos interessada na autonomia individual. há o acirramento das desigualdades sociais e a nova conjuntura de relações promovidas pela popularização das tecnologias da comunicação, nem sempre associadas à discussões de seus impactos e perspectivas (qual o sentido de amizade para os jovens de hoje que se gabam por adicionar em um único dia 500 pessoas como novos amigos no facebook?). essas e outras questões nos fazem refletir sobre a condição humana nessa modernidade líquida: o individualismo, a fragmentação, o consumismo, características ainda vigentes na era da conexão em rede.
seria o início de uma nova forma de vida ou um período de transição histórica de um certo tipo de ordem social para outro?
se o existencialismo já havia nos previnido que o inferno são os outros, agora, prontos a descartar relações tão logo desconectemos/deletemos/ignoremos alguém em uma rede social qualquer, que nova configuração social estamos construindo?
[outro dia, a @juliana_cunha andou se perguntando sobre isso, e escreveu o texto: rRe-humilhação de anônimos. leia aqui]
a ambivalência da vida humana, conforme bauman, habita a (nem sempre equilibrada) busca entre segurança e liberdade. o dilema consiste na mútua e irrevogável exclusão dessas bênçãos, e pior: qualquer uma sem a outra se torna uma maldição.
[um amigo francês me contou uma história sobre alguém que queria ter duas coisas ao mesmo tempo e acabava sem nenhuma delas. ele finalizou a história com um velho ditado de seu país: não se pode ter a manteiga e o dinheiro da manteiga.]
atualmente só o que queremos é ter tudo. quanto mais, melhor. e ainda: ter é sinônimo de felicidade: rápida. fugaz. doce. ao mesmo tempo. intensamente.
daí, fico pensando na proposta de bauman: reencontrar no exemplo socrático de auto criação da própria vida uma saída para o vazio massificante dos tempos atuais.
fico pensando também na cena proustiana do reencontro com o passado em gostos-cheiros-perfumes que nos trazem relações-experiências-conflitos-esperanças, enfim, memórias que, como uma obra literária, são capazes de nos manter em contato com o desejo humano por felicidade imerso em expectativas de encontro com a beleza e a reflexão.
como ficaremos entre uma xícara de chá que nos desvela o passado e uma taça de cicuta resultado na incursão sem medo no futuro?


