
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
o mundo não é mais o mesmo: o mundo mudou. nas ruas, nas escolas, na tv, até nas igrejas e no senado federal, nos bares, lanchonetes, nas salas de esperas dos consultórios médicos ou nas conversas pela internet, ou nos almoços em família, a todo instante alguém diz: o mundo mudou.
e mudou mesmo. todos nós, homens, mulheres, percebemos as mudanças: o projeto de urbanização do país levou a população para as cidades que com seus edifícios-avenidas-automóveis-viadutos-horários-buzinas-poluição etc instituem a urgência, a pressa. mudou também a forma como habitamos o planeta: com a interconexão comercial, midiática e comunicacional temos ignorado cada vez mais as antes tão significativas barreiras geográficas: agora o mundo inteiro é uma simples aldeia. mudaram também nosso valores éticos e morais, a forma como nos relacionamos uns com os outros. nas instituições que criamos para vivenciar essas relações, outrora tão importantes, até mesmo indispensáveis à vida em nossa sociedade, a mudança é tamanha que, todos dizem, as deixaram em crise: a família, a igreja, a cadeia, a escola, todos percebem, não são mais as mesmas. assim é que a sociedade ocidental tem experimentando, cada vez mais, as delícias e as dores de ser o que é: tem a verdade e o dom de iludir.
zygmunt bauman interessa-se justamente em compreender como essas mudanças têm se constituído, analisando-as de uma perspectiva um pouco diferente das demais pessoas. zygmunt bauman é um famoso sociólogo e como tal visa a análise apurada de comportamentos sociais que passam despercebidos a maioria das pessoas. de acordo com a definição desse autor, o sociólogo é aquele que, assim como o poeta, deve incessantemente tentar "perfurar as muralhas do óbvio e do evidente, da moda ideológica do dia cuja trivialidade é tomada como prova de seu sentido" (p. 233). a busca por tentar demolir tais muralhas, vocação tanto do sociólogo quanto do poeta, assemelha-se a obra da história: é uma buscar por descobrir algo (situações, possibilidades) já existente, mas oculto. mas, além disso, a "vocação da sociologia" exigiria ainda uma outra corrente: como os artistas e poetas sem pátria, cuja obra e reflexões são aprimoradas no exílio, o sociólogo necessita do distanciamento, do passar do tempo, para aprimorar sua capacidade de atuação, revelando aquilo que está para além do óbvio, sem fugir da responsabilidade da escolha, (afinal, a sociologia nunca é neutra). bauman nos alerta que será sempre indispensável assegurar que "essas escolhas sejam verdadeiramente livres e que assim continuem, cada vez mais, enquanto durar a humanidade. " (p. 246)
com o distanciamento propiciado pelos seus longos anos vida (já que nascido em 1925), do tempo de reflexão advindo da sexagenária experiência como professor e de sua profícua e vasta obra, zigmunt bauman buscará analisar a questão da profunda mudança na condição humana atual e suas conseqüências na forma como a narramos. por isso bauman escolhe conceitos como emancipação, individualidade, tempo–espaço, trabalho e comunidade como bases argumentativas deste livro, pretendendo, assim, explorar as sucessivas transforrmações (e aplicações) de seus significados hoje.
"não podemos mais tolerar o que dura" "não podemos mais fazer com que o tédio dê frutos". através da angustiada constatação de paul valéry, já no prefácio, cujo título é: "ser leve e líquido", somos apresentados a forma como zigmunt bauman concebe as tais mudanças que todos nós presenciamos, nessa que seria uma nova fase da história humana. para isso, bauman parte de uma metáfora bastante peculiar: segundo ele, temos vivenciado a transição de uma fase histórica onde se privilegiava a dureza, a estabilidade, a demarcação espacial, o peso, enfim, a solidez como características fundamentais. toda a nossa concepção de mundo, a forma como pensávamos e organizávamos as instituições e nos relacionávamos uns com os outros (as relações sociais, afetivas, culturais, comunicativas) almejavam o peso, a solidez. bauman define essa fase da história humana como modernidade sólida. mas as coisas têm mudado. e justamente por isso, bauman, nos apresenta o conceito de fluidez "como principal metáfora para o estágio presente da era moderna" (p. 8). neste novo estágio, a mudança, o fluxo, o movimento, a inconstância, a leveza são as principais características, daí o sociólogo chamá-la de modernidade líquida. " (...) a situação presente emergiu do derretimento radical dos grilhões e das algemas que, certo ou errado, eram suspeitos de limitar a liberdade individual de escolher e de agir. a rigidez da ordem é o artefato e o sedimento da liberdade dos agentes humanos. "(p. 17)
mas o que significaria liberdade nos tempos atuais? este conceito tão vastamente discutido (devido a suas bênçãos mistas) pelos filósofos modernos, bem como as consequências das vertentes sobre a emancipação das massas populares (suas possibilidades e ingerências) nos tempos atuais, ao contrário, esse tipo de questionamento não faz parte da agenda política. somos tão livres quanto os hóspedes em veraneio: até reclamamos se o serviço não é bem efetivado, mas esta crítica não é mais tão profunda. é uma crítica "desdentada", ou seja, "incapaz de afetar a agenda estabelecida para nossas escolhas na "política-vida".
em certa medida, o estabelecimento da cosmogonia moderna também significou o derretimento de paradigmas de eras precedentes. "tudo o que é sólido se dissipa no ar", já anunciavam os marxistas, há quase dois séculos, visando a superação das tradições estruturantes de então. mas naquela fase incial da modernidade, o espírito moderno propunha-se "(...) substituir o conjunto herdado de sólidos deficientes por outro conjunto, aperfeiçoado e preferivelmente perfeito, e por isso não mais alterável" (p. 9). ou seja, segundo bauman, apesar de inicialmente a modernidade significar a ruptura das tradições e epsitemologias anterior de derretê-los, a sedução dos sólidos, o apego ao que dura, ao concreto, ao estático, a insustentável solidez dos desejos visou apenas a substituição de algumas estruturas (sociais, políticas, culturais, cientificas, estéticas etc) por outras, igualmente sólidas, só que pretensamente mais duráveis. para se constituir uma nova ordem, os modernos de então trataram de derreter e profanar os sólidos pré-modernos, o que levou "à progressiva libertação da economia e de seus tradicionais embargos políticos, éticos e culturais. sedimentou uma nova ordem, definida principalmente em termos econômicos"(p.10) é interessante destacar que a rigidez dessa ordem instituída na modernidade, a ordem econômica que domina a totalidade da vida humana, que paradoxalmente resulta da progressiva "desregulação"e da "liberalização"dos mercados.
enquanto vivenciamos o constante processo de individualização dos sujeitos, a progressivo aniquilamento dos ideais anteriores de pertencimento social, atém mesmo no micro universo familiar, paradoxalmente, perpetuamos a incessante mecanismo econômico fundamentado nas liberdades do mercado, na facilidade da aquisição de bens de consumo, cuja duração abrevia-se cada vez mais. somos livres para comprar e isso parece bastar. basta?
ao ler bauman, reflito sobre como o nosso tempo mudou. embora tenhamos criado inúmeros dispositivos capazes de nos aproximar uns dos outros, encurtando distâncias, já não temos mais tempo para convivermos. também não nos reconhecemos nos espaços: somos hóspedes, eternamente em trânsito, apressados, desenraizados. estamos cada vez mais sozinhos, expostos. somos fluídos assim como nossas relações: as amizades, o amor, a aprendizagem, o lazer, o sexo, a comida... tudo, absolutamente tudo está regido por notas de individualismo, consumo rápido, desapego. será apenas isso que a era da instantaneidade do momento presente nos reserva: a leveza do substituível?
solidez e liquidez; peso e leveza são as metáforas do nosso tempo: o ser em transição entre o passado, já insustentável que milan kundera, em meio à controversa história de amor entre tomas e teresa, tão bem retratou, e a sedução do presente a que imergimos. tentando compreender como os moldes, os sólidos que foram quebrados desde a instituição do estado laico apenas foram substituídos por outros, igualmente cerceadores da liberdade individual, a modernidade fluida tem produzido seus próprios contrastes.
bauman representa, portanto, leitura indispensável aos que pretendem compreender o debate sobre os impactos do desenvolvimento tecno-científico e comunicacional nas relações humanas. meu caso. por isso, o diálogo com este autor, para mim, está apenas começando.
na internet, é claro, há muitos escritos sobre este tema. quer saber mais? clique aqui, aqui e aqui
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