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quarta-feira, 18 de abril de 2012

sobre a ausência de computadores e a gramática do tempo


eu já cursava a faculdade de pedagogia (na uneb, campus 12, em guanambi) quando, pela primeira vez, o uso do computador me foi apresentado como uma obrigação: uma professora exigiu que um relatório final da disciplina fosse entregue digitado, exclusivamente.
isso acondeceu faz quase uma década, mas parece uma era longínqua: os computadores já não eram vistos (tanto) como um item de filme futurista, eu até já tinha feito um curso de computação (sim, houve um tempo em que a gente precisava freqüentar um curso para aprender a manusear o mouse, o teclado, abrir janelas e tal, porque internet mesmo a gente não tinha, custava uma fortuna a conexão discada, principalmente no interior do estado.) mas naquela época, qualquer computador valia mais do que o nosso carro e nem mesmo a uneb disponibilizava algum para os alunos. resultado: fiz o trabalho no meu caderno, depois paguei alguém para digitar e imprimir, para, enfim, entregá-lo à professora.
quando da divulgação das notas, aconteceu uma tragédia: soubemos que alguém havia recebido uma nota zero. a moça era inteligente, ótima aluna, já trabalhava como professora, de língua portuguesa. não acreditamos. ao ser interrogada, a professora justificou: a nota devia-se ao fato de o trabalho ter sido entregue manuscrito.
[só quem fez magistério no século passado entenderá o que digo: houve mesmo um tempo em que trabalho escolar feito com esmero implicava letra caprichada e até ilustrações em cantos estratégicos da página.]
nota zero deve doer muito, todos nos sentimos injustiçados e por mais que a professora argumentasse que estávamos já na universidade, que não era admissível um trabalho manuscrito, a moça chorando sem parar, sabíamos que ela morava em um município bem pequeno, trabalhava em outro e vinha estudar em um terceiro, Guanambi, onde a universidade não oferecia um único computador para os alunos, mas naquele momento, soubemos: em seu município não havia lan houses, ela nem mesmo tinha eletricidade em casa. a professora, por fim, permitiu um prazo extra para a entrega do relatório, digitado, claro.


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meu computador morreu. isso foi no ano passado. não pude comprar outro ainda. desde então, sobrevivo entre lan houses mas principalmente nos campi da ufba: teatro, ici, educação e são lázaro. poderia desfiar um longo rosário sobre o que é depender de meia dúzia de máquinas limitadas, que quando funcionam, restringem boa parte dos sites/conteúdos que preciso abrir, daí que volta e meia tenho que pagar para imprimir algo que me interessa para ler depois.


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o Boaventura de Souza Santos, no livro gramática do tempo: para uma nova cultura política discute as possibilidades de uma “reinvenção da emancipação social”, através da análise das “alternativas à globalização neoliberal e ao capitalismo global produzidas pelos movimentos sociais e pelas organizações não governamentais na sua luta contra a exclusão e a discriminação em diferentes domínios sociais e em diferentes países” (p. 93). para tanto, o autor faz uma profunda crítica à tradição científica e filosófica ocidental e ao modelo de racionalidade que ela forjou, a chamada de “razão indolente” a qual sempre pretendeu transformar interesses hegemônicos em conhecimentos verdadeiros, obtendo como efeitos não só uma compreensão limitada do mundo, como uma compreensão limitada de si mesma e a produção de não-existências (assentadas na lógica da monocultura do saber, da monocultura do tempo linear, e da classificação social). para superar as ausências dessa perspectiva, Boaventura propõe a substituição das monoculturas por ecologias (dos saberes, das temporalidades, dos reconhecimentos, das trans-escalas, das produtividades), para expandir o domínio das emergências (das experiências sociais possíveis), propõe como campos sociais mais importantes "onde a multiplicidade e diversidade mais provavelmente se revelarão” as experiências de conhecimentos; de desenvolvimento, trabalho e produção; de reconhecimento; de democracia; de comunicação e informação.
este último campo, o das experiências de comunicação e informação envolve os “diálogos e conflitos suscitados pela revolução das tecnologias de comunicação e de informação, entre os fluxos globais de informação e os meios de comunicação social globais, por um lado e, por outro, as redes de comunicação independente transnacionais e os media independentes alternativos” (p. 122)
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cibercultura é um termo da moda. mas o que dizer dos que ainda não têm acesso aos elementos básicos da urbis moderna, como a eletricidade? e os "atrasados" da pós-modernidade que não possuem computador/internet?
hoje um computador não vale mais o preço de um carro e todo mundo tem um. todo mundo, será? um notebook vale 3 ou 4 salários inteiros, mais ou menos. no caso denunciado por Sigmar, das crianças asiáticas que pelo trabalho nas fábricas de iPhone, iPad recebem apenas 0,70 centavos por 16 horas de trabalho, penso em quantas centenas de dias sem alimento-roupas-escola-água-eletricidade-remédio-etc seriam necessários para que alguma delas conseguisse comprar um iMac, produto-objeto-de-desejo-mundial fabricado pela mesma empresa que as escravisa, a Apple.

a roda do tempo não para de girar, principalmente para os conectados. cada vez mais decisões que impactam a vida social são fomentadas na Web, para e por meio dela.
então, neste tempo, o que significa ser um/a:
          estudante que, como eu, não têm um pc?
          idoso que não sabe usá-lo?
          deficiente que não conte com uma adaptação necessária?
          analfabeto?
         habitante das muitas zonas sem cobertura da inetnet/eletricidade, Brasil a fora?
         ou
         criança asiática que precise comer após 16 horas de trabalho escravo, assim como outras tantas crianças pelo mundo, vítimas da exploração capitalista em vigor pelas corporações que regem o mundo hoje (conforme já discuti na postagem sobre o filme "a corporação") ?

somos excluídos.
mas estamos de todo alheios aos impactos-consequências-reconfigurações que as TIC permeiam-fomentam?
a complexidade dessa questão me faz pensar que, se não conseguimos superar tantas ausências de forma igualitária, construir uma nova perspectiva, baseada na colaboração, no intercâmbio de saberes-poderes, na comunicação em rede, elementos fundantes da cibercultura, se fazem cada vez mais urgentes: para todos.

estes pontos de muitos modos se articulam, num trançar dos fios conceituais, com críticas-projeções que tenho lido nos autores que consideram a cibercultura como nascedouro de um novo tipo de democracia, a ciberdemocracia. mas, por hora, sigo, com Boaventura me perguntando pelas (possíveis?) alternativas à teoria geral estabelecida, como também pelas possibilidades de transformação social e superação das injustiças, das desigualdades, da padronização do saber. enfim: o sentido da luta pela emancipação social.



para saber mais:

Boaventura: http://www.boaventuradesousasantos.pt/pages/pt/homepage.php





segunda-feira, 9 de abril de 2012

a corporação e a cibercultura - aberturas e entrecruzamentos




empresas de produtos diferentes como defensivos agrícolas, roupas, pneus, refrigerantes e até remédios, ao negociarem seus produtos, podem agir como psicopatas? de forma geral, claro que já ouvimos falar que instituições financeiras e suas grandes marcas têm notória voracidade por lucros máximos. mas, até que ponto a falta de controle público sobre as ações dessas instituições corporativas, parte constituinte da sociedade atual, tem influenciado e causado o mal à vida das pessoas?


[descrição da imagem: a capa brasileira do filme A Corporação: sobre imagens de entrevistados no filme, que formam um tapete vermelho, anda um vulto negro de homem, com pasta na mão, vestindo terno e chapéu. de branco, além das letras com o nome do filme, há um desenho de uma auréola na cabeça do homem e também um rabo de demônio]




com o objetivo de investigar e denunciar os impactos da progressiva hegenomia das corporações Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan produziram o documentário the corporation. através de entrevistas, de análise de reportagens, filmes, publicidades, documentos históricos etc, delineia-se o quadro de estratégias de dominação e concepções de soberania e impunidade que corporações (representadas por alguns de seus ilustres diretores e presidentes) usam para justificar seus os atos mais funestos. Noam Chomsky e Michael Moore, entre outros, apresentam um contra balanço: um ponto de crítica e reflexão sobre como a atuação das corporações tem influenciado a história humana, bem como suas implicações futuras.


as corporações nasceram durante a revolução industrial, inicialmente como pequenos grupos licenciados e regulamentados pelo estado para alguma tarefa, como a construção de uma ponte, por exemplo. após revolução industrial, e da guerra civil norte-americana e das novas demandas sociais de urbanização e industrialização, como a construção de ferrovias, bancos, fábricas ampliaram seus lucros. porém, o que determinou a soberania e o poder das corporações, tal qual as conhecemos hoje, foi principalmente a manobra de seus advogados para equipará-las legalmente aos direitos dos cidadãos, totnando-as igualmente um tipo de pessoa, a pessoa jurídica.




[descrição da imagem: close do rosto de uma moça branca, sua boca está tampada por uma máscara feita com o código de barras]

de lá para cá, com o avanço da economia global, se poder só aumenta. as corporações têm se constituído através de práticas sociais cuja perversidade e desprezo pelo alheio pode ser comparada à psicopatia. determinam legislações, apropriam-se de saberes e práticas, fundamentadas em ideais de faturamento máximo, se valem até da privatização de elementos antes impensados, através da criação de patentes ou da pura usurpação, como aconteceu com a água boliviana, a produção de sementes estéreis na Índia e o promissor comércio de genes. em busca de mais lucro, as corporações privatizaram a vida.


as corporações não enxergam qualquer limite. no documentário são apresentados exemplos da relação de empresas em eventos aberrantes, com o fornecimento de equipamentos pela IBM para a manutenção logística dos campos de concentração nazistas; as denúncias de manipulação da mídia, como no caso da FOX que se dobrou frente ao poder de uma empresa (Monsanto) que vende hormônio para vacas leiteiras que causam sérios problemas de saúde dos animais e das pessoas que consumirem seu leite e a não menos impactante e escandalosa relação da Wal-Mart (e outras marcas famosas como a Nike) com a submissão de sul americanos e asiáticos a condições precárias de trabalho, escravagistas até.


o documentário escancara algumas das mais perversas faces do capitalismo. fico pensando como nós, habitantes de um mundo com tantas nuances e símbolos podemos nos ‘armar’ contra os ataques de interesses tão sutis, quase invisíveis, como o da mídia, da propaganda, da cultura manipulada que, a todo custo, tenta impor seus desejos por objetos tão desnecessários quanto efêmeros, fortalecidos pela lógica de consumo. somos mesmo tão frágeis e manipuláveis como crianças em frente à TV, em todos os aspectos da nossa vida?


no Brasil, no tocante à educação, por exemplo, temos convivido com a assunção de modelos, práticas e técnicas de ensino determinadas por organismos internacionais, muitos deles diretamente envolvidos com a perpetuação do modelo capitalista vigente. equipamentos, legislações, paradigmas educacionais são importados e implantados aqui.


é emblemático o recente caso da chegada oficial da cultura digital nas escolas. se pensarmos um pouco, logo diagnosticaremos as bases epistemológicas que justificaram tanto a aquisição, quanto os modelos seguindo para a suposta difusão do computador nas escolas. os laboratórios de informática, bem como os softwares adotados, quando funcionam, via de regra submetem-se a interesses ditos ‘pedadógicos’, mas que, na realidade, apenas reproduzem o modelo educacional anterior. daí a pertinência do questionamento que Pierre Lévy faz no seu livro Cibercultura: bastaria transpor às novas mídias os antigos e clássicos conhecimentos, ou precisamos reconhecer a atual mutação das nossas relações com o saber propiciadas pela criação da cibercultura?



acredito que um movimento de superação dos problemas sociais que temos hoje atravessem uma reflexão sobre esses problemas, suas faces mais esquivas, sempre nos perguntando pelos fundamentos de nossas práticas: a que objetivos elas servem? para benefício de quem as nossas ações se direcionam?


na era da cultura digital, com a comunicação em rede, talvez sejamos mais capazes de expor os nós e as fissuras do sistema vigente, talvez possamos superá-lo. para isso, bastaria apenas o desenvolvimento técnico, com seus produtos e hábitos igualmente forjados no seio do consumo volátil de interesses hegemônicos?. claro que não. the corporation mostra bem como a produção de ‘bons’ produtos e serviços nem sempre alia-se ao senso de responsabilidade socio ambiental. antes, visam ao lucro. é urgente, portanto, uma profunda mudança de mentalidade.


a cibercultura permite outros pontos de (inter)ação. com Lévy, é preciso considerar o ciberespaço para além desenvolvimento e uso de dispositivos técnicos e a cibercultura não apenas como o trânsito por essas vias, as rotas de acesso à informação, mas como um movimento social, como “prática de comunicação interativa, recíproca, comunitária e intercomunitária, o ciberespaço como horizonte de mundo virtual e vivo, heterogêneo e intotalizável no qual cada ser humano pode participar e contribuir” (p. 128). esse movimento é regido pelos princípios da interconexão (que tece um universal pelo contato da comunicação interativa e constitui a humanidade em um contínuo sem fronteiras ); da criação de comunidades virtuais (independente das distâncias geográficas, pessoas se reúnem em um projeto de cooperação ou troca de afinidades, conhecimentos, projetos mútuos. suas regras e objetivos exploram as novas formas de opinião pública.); e da inteligência coletiva (“veneno e remédio do ciberespaço” constitui-se também como sua finalidade última)


o ciberespaço não é apenas a internet. é antes o “grande oceano do novo planeta informacional”, alimentado por muitos rios: redes independentes desde universidades ar as mídias clássicas ( bibliotecas, museus, jornais, televisão, etc), daí sua complexidade, suas rotas de fuga.


assim como mesmo dentro da poderosa indústria cinematográfica norte-americana, um documentário como the corporation não só é produzido, como divulgado (em espaços alternativos, mas é) e chega a ser premiado, podemos perceber que sistema tem brechas. podemos escancará-las. agora, em rede.






fontes:

o documentário The Corporation está disponível no youtube e no google vídeos
Lévy, P. Cibercultura. São Paulo: 34, 1999 disponídel aqui