empresas de produtos diferentes como defensivos agrícolas, roupas, pneus, refrigerantes e até remédios, ao negociarem seus produtos, podem agir como psicopatas? de forma geral, claro que já ouvimos falar que instituições financeiras e suas grandes marcas têm notória voracidade por lucros máximos. mas, até que ponto a falta de controle público sobre as ações dessas instituições corporativas, parte constituinte da sociedade atual, tem influenciado e causado o mal à vida das pessoas?
[descrição da imagem: a capa brasileira do filme A Corporação: sobre imagens de entrevistados no filme, que formam um tapete vermelho, anda um vulto negro de homem, com pasta na mão, vestindo terno e chapéu. de branco, além das letras com o nome do filme, há um desenho de uma auréola na cabeça do homem e também um rabo de demônio]com o objetivo de investigar e denunciar os impactos da progressiva hegenomia das corporações Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan produziram o documentário the corporation. através de entrevistas, de análise de reportagens, filmes, publicidades, documentos históricos etc, delineia-se o quadro de estratégias de dominação e concepções de soberania e impunidade que corporações (representadas por alguns de seus ilustres diretores e presidentes) usam para justificar seus os atos mais funestos. Noam Chomsky e Michael Moore, entre outros, apresentam um contra balanço: um ponto de crítica e reflexão sobre como a atuação das corporações tem influenciado a história humana, bem como suas implicações futuras.
as corporações nasceram durante a revolução industrial, inicialmente como pequenos grupos licenciados e regulamentados pelo estado para alguma tarefa, como a construção de uma ponte, por exemplo. após revolução industrial, e da guerra civil norte-americana e das novas demandas sociais de urbanização e industrialização, como a construção de ferrovias, bancos, fábricas ampliaram seus lucros. porém, o que determinou a soberania e o poder das corporações, tal qual as conhecemos hoje, foi principalmente a manobra de seus advogados para equipará-las legalmente aos direitos dos cidadãos, totnando-as igualmente um tipo de pessoa, a pessoa jurídica.
[descrição da imagem: close do rosto de uma moça branca, sua boca está tampada por uma máscara feita com o código de barras]
de lá para cá, com o avanço da economia global, se poder só aumenta. as corporações têm se constituído através de práticas sociais cuja perversidade e desprezo pelo alheio pode ser comparada à psicopatia. determinam legislações, apropriam-se de saberes e práticas, fundamentadas em ideais de faturamento máximo, se valem até da privatização de elementos antes impensados, através da criação de patentes ou da pura usurpação, como aconteceu com a água boliviana, a produção de sementes estéreis na Índia e o promissor comércio de genes. em busca de mais lucro, as corporações privatizaram a vida.
as corporações não enxergam qualquer limite. no documentário são apresentados exemplos da relação de empresas em eventos aberrantes, com o fornecimento de equipamentos pela IBM para a manutenção logística dos campos de concentração nazistas; as denúncias de manipulação da mídia, como no caso da FOX que se dobrou frente ao poder de uma empresa (Monsanto) que vende hormônio para vacas leiteiras que causam sérios problemas de saúde dos animais e das pessoas que consumirem seu leite e a não menos impactante e escandalosa relação da Wal-Mart (e outras marcas famosas como a Nike) com a submissão de sul americanos e asiáticos a condições precárias de trabalho, escravagistas até.
o documentário escancara algumas das mais perversas faces do capitalismo. fico pensando como nós, habitantes de um mundo com tantas nuances e símbolos podemos nos ‘armar’ contra os ataques de interesses tão sutis, quase invisíveis, como o da mídia, da propaganda, da cultura manipulada que, a todo custo, tenta impor seus desejos por objetos tão desnecessários quanto efêmeros, fortalecidos pela lógica de consumo. somos mesmo tão frágeis e manipuláveis como crianças em frente à TV, em todos os aspectos da nossa vida?
no Brasil, no tocante à educação, por exemplo, temos convivido com a assunção de modelos, práticas e técnicas de ensino determinadas por organismos internacionais, muitos deles diretamente envolvidos com a perpetuação do modelo capitalista vigente. equipamentos, legislações, paradigmas educacionais são importados e implantados aqui.
é emblemático o recente caso da chegada oficial da cultura digital nas escolas. se pensarmos um pouco, logo diagnosticaremos as bases epistemológicas que justificaram tanto a aquisição, quanto os modelos seguindo para a suposta difusão do computador nas escolas. os laboratórios de informática, bem como os softwares adotados, quando funcionam, via de regra submetem-se a interesses ditos ‘pedadógicos’, mas que, na realidade, apenas reproduzem o modelo educacional anterior. daí a pertinência do questionamento que Pierre Lévy faz no seu livro Cibercultura: bastaria transpor às novas mídias os antigos e clássicos conhecimentos, ou precisamos reconhecer a atual mutação das nossas relações com o saber propiciadas pela criação da cibercultura?
acredito que um movimento de superação dos problemas sociais que temos hoje atravessem uma reflexão sobre esses problemas, suas faces mais esquivas, sempre nos perguntando pelos fundamentos de nossas práticas: a que objetivos elas servem? para benefício de quem as nossas ações se direcionam?
na era da cultura digital, com a comunicação em rede, talvez sejamos mais capazes de expor os nós e as fissuras do sistema vigente, talvez possamos superá-lo. para isso, bastaria apenas o desenvolvimento técnico, com seus produtos e hábitos igualmente forjados no seio do consumo volátil de interesses hegemônicos?. claro que não. the corporation mostra bem como a produção de ‘bons’ produtos e serviços nem sempre alia-se ao senso de responsabilidade socio ambiental. antes, visam ao lucro. é urgente, portanto, uma profunda mudança de mentalidade.
a cibercultura permite outros pontos de (inter)ação. com Lévy, é preciso considerar o ciberespaço para além desenvolvimento e uso de dispositivos técnicos e a cibercultura não apenas como o trânsito por essas vias, as rotas de acesso à informação, mas como um movimento social, como “prática de comunicação interativa, recíproca, comunitária e intercomunitária, o ciberespaço como horizonte de mundo virtual e vivo, heterogêneo e intotalizável no qual cada ser humano pode participar e contribuir” (p. 128). esse movimento é regido pelos princípios da interconexão (que tece um universal pelo contato da comunicação interativa e constitui a humanidade em um contínuo sem fronteiras ); da criação de comunidades virtuais (independente das distâncias geográficas, pessoas se reúnem em um projeto de cooperação ou troca de afinidades, conhecimentos, projetos mútuos. suas regras e objetivos exploram as novas formas de opinião pública.); e da inteligência coletiva (“veneno e remédio do ciberespaço” constitui-se também como sua finalidade última)
o ciberespaço não é apenas a internet. é antes o “grande oceano do novo planeta informacional”, alimentado por muitos rios: redes independentes desde universidades ar as mídias clássicas ( bibliotecas, museus, jornais, televisão, etc), daí sua complexidade, suas rotas de fuga.
assim como mesmo dentro da poderosa indústria cinematográfica norte-americana, um documentário como the corporation não só é produzido, como divulgado (em espaços alternativos, mas é) e chega a ser premiado, podemos perceber que sistema tem brechas. podemos escancará-las. agora, em rede.
fontes:
o documentário The Corporation está disponível no youtube e no google vídeosLévy, P. Cibercultura. São Paulo: 34, 1999 disponídel aqui
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