caminhos da leitura e dos leitores até o ciberespaço
é certo que a leitura e a escrita constituem-se como bens culturais e historicamente construídos, cuja apropriação favorece aos grupos sociais que os detém, em detrimento de outros que não podem, não conseguem, ou são impedidos de acessá-los.
apesar disso, de tão intrínsecos ao nosso modo cotidiano de ser e agir, a leitura e a escrita, bem como suas práticas e suportes, parecem ser equânimes e eternos. mas não são. pessoas como Roger Chartier , um proeminente historiador da leitura francês, têm se dedicado a investigar as múltiplas histórias que o ato de ler e escrever encerram: a origem, a difusão, a valorização (ou impedimento), as mutações que a leitura, seus suportes e prática vêm sofrendo e suas respectivas implicações sociais e culturais.
no livro “Navegar no ciberespaço: o perfil do leitor imersivo”, Lúcia Santaella diz que os estudos sobre a leitura têm merecido cada vez mais destaque, na medida em que a nossa sociedade se dá conta das (e se assombra com) as revoluções atualmente presenciadas com a criação do ciberespaço e a subseqüente popularização dos seus suportes e estruturas para o texto escrito, como os cd-rom, a hipermídia, a internet. esse contexto traz promessas e incertezas: o potencial da leitura no computador, ao mesmo tempo que poderia nos dar acesso ao sonho de ter toda uma biblioteca de Alexandria ao alcance de um “clique”, paradoxalmente, talvez também possa significar o desaparecimento da cultura escrita.
sem adentrar na discussão sobre o futuro impresso nesse novo contexto, Santaella buscará traçar as características perceptivo-cognitivas de um novo tipo de leitor, emergidas através da diversidade dos atuais suportes eletrônicos e estruturas híbridas e alineares do texto no ciberespaço.
para mapear esse novo leitor, Santaella realiza uma “busca de determinações passadas que possam ajudar a compreender os vetores do presente”, com isso, fundamenta a sua classificação do que seriam os três tipos de leitores, a saber: 1. o leitor contemplativo, meditativo (leitor do códex, silencioso, fixado em objetos e imagens estáveis, localizáveis, ele presenciou a difusão da imprensa) 2. o leitor movente, fragmentado (leitor dos jornais e do cinema, oriundo do frenesi da modernidade, habitante dos centros urbanos, com suas notícias rápidas e fragmentadas, leitor das imagens, da publicidade); 3. o leitor imersivo, virtual (leitor do computador, que navega pelas infovias do ciberespaço “entre nós e nexos construindo roteiros não lineares, não seqüenciais”).
apesar disso, de tão intrínsecos ao nosso modo cotidiano de ser e agir, a leitura e a escrita, bem como suas práticas e suportes, parecem ser equânimes e eternos. mas não são. pessoas como Roger Chartier , um proeminente historiador da leitura francês, têm se dedicado a investigar as múltiplas histórias que o ato de ler e escrever encerram: a origem, a difusão, a valorização (ou impedimento), as mutações que a leitura, seus suportes e prática vêm sofrendo e suas respectivas implicações sociais e culturais.
no livro “Navegar no ciberespaço: o perfil do leitor imersivo”, Lúcia Santaella diz que os estudos sobre a leitura têm merecido cada vez mais destaque, na medida em que a nossa sociedade se dá conta das (e se assombra com) as revoluções atualmente presenciadas com a criação do ciberespaço e a subseqüente popularização dos seus suportes e estruturas para o texto escrito, como os cd-rom, a hipermídia, a internet. esse contexto traz promessas e incertezas: o potencial da leitura no computador, ao mesmo tempo que poderia nos dar acesso ao sonho de ter toda uma biblioteca de Alexandria ao alcance de um “clique”, paradoxalmente, talvez também possa significar o desaparecimento da cultura escrita.
sem adentrar na discussão sobre o futuro impresso nesse novo contexto, Santaella buscará traçar as características perceptivo-cognitivas de um novo tipo de leitor, emergidas através da diversidade dos atuais suportes eletrônicos e estruturas híbridas e alineares do texto no ciberespaço.
para mapear esse novo leitor, Santaella realiza uma “busca de determinações passadas que possam ajudar a compreender os vetores do presente”, com isso, fundamenta a sua classificação do que seriam os três tipos de leitores, a saber: 1. o leitor contemplativo, meditativo (leitor do códex, silencioso, fixado em objetos e imagens estáveis, localizáveis, ele presenciou a difusão da imprensa) 2. o leitor movente, fragmentado (leitor dos jornais e do cinema, oriundo do frenesi da modernidade, habitante dos centros urbanos, com suas notícias rápidas e fragmentadas, leitor das imagens, da publicidade); 3. o leitor imersivo, virtual (leitor do computador, que navega pelas infovias do ciberespaço “entre nós e nexos construindo roteiros não lineares, não seqüenciais”).
por meio da pesquisa de campo e do levantamento teórico fundamentado nas ciências cognitivas que o livro apresenta, Santaella explorará justamente este último tipo de leitor, definindo-o e caracterizando-o.
sobre leitores cegos: outras histórias
seria possível tomar por base o mapeamento perceptivo que Santaella realiza e relacioná-lo às práticas de leitura comuns à um grupo bem particular de leitores, as pessoas cegas, grupo este a que a autora não se refere, mas que igualmente tem transitado pelas revoluções nos modos de ler? é certo que muitas são as particularidades da exposição de Santaella, como a fixação de sua análise nos hábitos de leitores a part ir do codex, não se referindo aos usos do papiro nem da leitura em voz alta, através de ledores (prática bastante comum principalmente na idade média), enfocando o desenvolvimento da leitura silenciosa, visual. apesar dessas e outras nuances, penso ser possível explorar o mapeamento que ela faz para melhor compreender o perfil dos leitores cegos, através das suas práticas de leitura, e das tecnologias usadas. assim, temos:
1. o leitor cego contemplativo: desde a antiguidade, os cegos valiam-se da leitura realizada por ledores (pessoas que lêem em voz alta tornando os conteúdos escritos acessíveis a pessoas com limitação visual – idosos ou cegos – ou que não conhecem o código escrito, como os analfabetos as crianças, por exemplo), mas apenas na modernidade, com o advento da escrita em relevo, desenvolvida por Luis Braille, na França, este leitor também pôde escrever. os livros impressos em Braille começam a se difundir, paralelamente à criação de instituições especializadas na educação dessas pessoas (como o IBC e o ICB)
[descrição da imagem: criança cega escreve em braille através de uma reglete e punção]
[descrição da imagem:criança cega lê livro impresso em braille, ao lado, uma máquina de datilografia braille]2. o leitor cego movente, fragmentado: a difusão dos jornais e principalmente dos rádios, dos gravadores que possibilitam através das fitas k7 (e depois com os CDs) a gravação de leituras (livros falados) e assim a composição de audiotecas.
3. o leitor cego imersivo, virtual: os leitores cegos têm acesso ao computador por meio de tecnologias assistivas - ajudas técnicas que permitem ou facilitam este acesso com autonomia, através de softwares ledores de tela, que lêem os arquivos selecionados, valendo-se de programas de síntese de voz. os mais usados são: o Dosvox, o NVDA, o Jaws (sobre tecnologias assistivas, tomo por base os trabalhos do professor Teófilo Galvão Filho).
[descrição da imagem: duas pessoas utilizam o computador através de software adaptado para pessoa com baixa visão]
[descrição da imagem: duas pessoas cegas utilizam o computador, por meio de ledor de tela]podemos perceber que para as pessoas com deficiência visual, cegas ou com visão reduzida, que durante séculos estiveram alijadas da cultura letrada, a atual possibilidade de acesso ao saber e ao poder que a leitura representa constitui-se como elemento fundamental para a modificação dos mecanismos de segregação a que, historicamente, estes sujeitos estiveram submetidos, assim como o acesso à educação, ao trabalho, à vida social.
assim como ocorre com as pessoas que enxergam, o computador subsidia uma revolução nos modos de ler e escrever também para os cegos, pois permite o acesso a saberes e informações com os mais diversos graus de complexidade, com maior rapidez e comodidade, além da possibilidade da comunicação e interação à distância, em tempo real. no entanto, as implicações dessa nova forma de leitura realizada pelos cegos, a leitura imersiva, virtual, têm preconizado uma série de discussões que envolvem elementos como uma suposta preferência pela leitura no computador, baseada na voz sintetizada de um programa, em detrimento de uma leitura ‘direta’, em efetivo con-tato com o livro impresso. esse fenômeno é chamado de “desbraillização”. (sobre este assunto, sugiro a análise-militância da professora Joana Belarmino)
inseridos em um mundo de predomínio do escrito impresso de maneira inacessível, em tinta, cores e formas que eles não podiam acompanhar, a inserção dos cegos na cultura do impresso se deu de maneira revolucionária e indelével, através do sistema Braille. porém, aliados à histórica limitação ao acesso e uso do Braille, atualmente ainda coexistem inúmeros outros fatores que obstaculizam à leitura pelos cegos: o reduzido número de bibliotecas públicas e escolares com acervo adaptado; o alto custo de material (impresso ou dos recursos de acessibilidade digital) frente à realidade de pobreza a que a maioria dos deficientes se encontra no Brasil; além das barreiras existentes em espaços culturais como museus, teatros e cinemas, como a limitada prática da audiodescrição*.
esses aspectos devem ser problematizados se quisermos efetivamente superá-los, principalmente no tocante às condições precárias de acesso à cultura e à educação, obstáculos intensificados quando considerado como sujeito leitor o deficiente visual.
ao perceber que é historicamente variável o modo como o ensino da leitura é compreendido e efetivado nos diferentes níveis de escolarização, bem como seus respectivos objetivos, fundamentos e métodos, tenho compreendido que o acesso (ou impedimento) à leitura tem se dado de maneiras múltiplas, principalmente na sociedade atual. a escola, ambiente privilegiado de formação de leitores, também precisa refletir sobre as implicações que os suportes usados podem gerar para o processo de ensino e aprendizagem da leitura. no caso dos estudantes com deficiência visual, faz-se urgente compreender e discutir as implicações para aprendizagem e formação desses educandos, oriundas da leitura não mais na página impressa em Braille, mas agora através de programas que literalmente lêem em voz alta o que se encontra escrito na tela do computador.
* Audiodescrição é tradução em palavras de imagens estáticas (pinturas, esculturas, fotografias, ilustrações de livros didáticos etc) ou de materiais audiovisuais (filmes, programas televisivos, espetáculos teatrais, de dança etc), tornando essas informações visuais acessíveis às pessoas cegas ou com baixa visão.
obs: todas as fotografias são do Arquivo IBC
fontes:
SANTAELLA, Lúcia. Navegar no ciberespaço: o perfil do leitor imersivo. São Paulo: Paulus, 2004.
para saber mais sobre leitura e deficiência visual:
outras referências:
CHARTIER, R. Lo popular: entre desprecio y mercado, entre creencia y distancia. In: BARBOSA, M. H. S; RETTENMAIER, M; ROSING, T. M. K (orgs.) Leitura, identidade e patrimônio cultural. Passo fundo: VTF, 2004.
___________. Os desafios da escrita. Tradução de F. M. E. Moretto. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
___________. Práticas de leitura. Tradução de C. Nascimento. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
___________. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Tradução de R. C. C de Moraes. São Paulo: Editora UNESP/Imprensa oficial do Estado de São Paulo, 1999.
___________. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Tradução de M. Del Priore. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1994.
DIDEROT, D. Carta sobre os cegos endereçada àqueles que enxergam. Tradução de A. G da Silva. São Paulo: Editora Escala, 2006.
GALVÃO FILHO, T. A. Tecnologia assistiva para uma escola inclusiva: apropriação, demanda e perspectivas. 2010. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010.
MARTINS, B. S. E se eu fosse cego? Narrativas silenciadas da deficiência. Lisboa, Portugal: Colecção Saber Imaginar o social, Edições Afrontamento, 2006.
SILVA, L. M. da. Qualquer maneira de ler vale a pena: sobre leituras, ledores e leitores cegos. Presença Pedagógica. Belo Horizonte/MG, v. 15, p. 12-17, 2009.
___________. Diferenças negadas: o preconceito aos estudantes com deficiência visual. Salvador: EDUNEB, 2008.

Nossa, Adriany, sua postagem me fez emergir na questão da interseção entre as TIC e os leitores com deficiência visual a partir de aspectos que ainda não tinha refletido; a categorização que construiu acrescenta às análises de Santaella uma realidade específica e importante. Na rede municipal, no projeto em que atuo, tinhamos a dificuldade com a inserção dos alunos deficientes visuais no laboratório: não tinha o software específico, etc, uma professora optou por colocar uma aluna deficiente visual com outra que era leidora e havia uma interação legal entre elas. Acho que nosso pensamento é que é limitado quando falamos de inclusão.
ResponderExcluirquerida Sigmar! pois é... os desafios da educação, principalmente na formação de leitores, em nosso país, são imensos, não é? infelizmente com as pessoas com deficiência visual não é diferente, pelo contrário: de forma geral, ainda, o que temos são práticas que 'invisibilizam' esses sujeitos, o que torna ainda mais dificil a aprendizagem e a plena apropriação da leitura/escrita.
ResponderExcluirnão só o acesso às tecnologias, mas também o próprio conhecimento pedagógico está ausente das salas de aulas ditas inclusivas. uma pena!
veja só: ações que visem a superação dessas práticas sempre bem vindas: a convivência, a tentativa de solucionar problemas, o não se acomodar frente as dificuldades já significam uma grande abertura para a mudança. a ação que vc descreve se insere em uma das perspectivas de transformação, há outras: o acompanhamento específico realizado na sala de recursos que deveria constar de instrumentos/tecnologias/recursos pedagógicos específicos e profissionais habilitados(infelizmente nem toda escola possui); apoio de instituições como o CAP e o Instituto de Cegos, no caso de Salvador também do Setor Braille, da Biblioteca Pública.
para o acesso ao computador, há a instalação de softwares ledores de tela gratuitos como o dosvox, por exemplo...
são muitas as dificuldades e longos os caminhos, mas acredito que na meidada em que cremos na educação, construimos, dia a dia, novas pontes, nossas chances, novos caminhos e as TIC podem nos ajudar muito nessa jornada.
O que tem ficado cada dia mais claro para nós nas aulas de Bonilla é a importância de estabelecer conexões entre o ensainado em sala e as vivências cotidianas. Acho que esta sua postagem reflete que vocês está conseguindo cumprir esta tarefa!
ResponderExcluir"Quando eu crescer quero ser como você"...
kkkkkkkkkkkkkkkkk
ResponderExcluirobrigada, Dan, menino-prodígio!