compreender
a cibercultura requer mais do que a definição do desenvolvimento técnico
potencializado pelas sociedades ocidentais desde o projeto
racionalista-iluminista da modernidade até nossos dias, para além disso, faz-se necessária problematizar a análise de alguns pontos emergentes (tais como: as práticas sociais, políticas, culturais, artísticas, urbanísticas, éticas,
entre outros). a nova configuração comunicacional contemporânea,
gestada nas/pelas tecnologias digitais de informação e
comunicação nos apresentam perspectivas vivas e
pulsantes, diferente do que previu o imaginário moderno, cujo medo
característico foi amplamente difundido pelo ideal da robotização e assepsia comuns
à futurística do cinema.
no
ensaio: Cibercultura: alguns pontos para
compreender a nossa época, Lemos[i]
discute esse imaginário, as metáforas e as práticas sociais precedentes à
cibercultura e suas atuais implicações/re-configurações, até
as características dessa nova perspectiva sociocultural: a estrutura técnica,
a difusão do acesso e suas relações com o cotidiano e as novas demandas que
surgem nos aspectos legislativo, médico (as formas como entendemos e
manipulamos os corpos, os cyborgs) e as questões da cidades (cibercidades) etc.
ao
refletir sobre o atual contexto da comunicação e informação a que todos estamos
envolvidos, devido justamente ao fato de que na origem da cibercultura estão as
possibilidades planetárias da comunicação digital, ubíqua, desterritorializada,
cada vez mais ampla e abrangente, como o fluxo de informações que
cria-movimenta-vigia-re-configura os diversificados níveis da nossa vida
cotidiana, não posso deixar de pensar em um aspecto a que Lemos não se refere
diretamente, mas que, creio eu, é transversal a qualquer discussão sociocultural:
a educação.
mais
do que o desenvolvimento de equipamentos e técnicas, a cibercultura pressupõe
uma re-configuração social, devido a uma relação simbiótica entre os elementos
da tecnologia digital que se propaga e as novas práticas e relações culturais,
comunicativas. pensando assim, a questão da educação se faz mais do que
presente. para ser fiel ao léxico usado
pelo autor, a cibercultura fomenta a re-configuração de demandas e prática
sociais, novas formas de pensar, de agir, de entender o mundo, as cidades, a
informação, nós mesmos. a escola não está alheia a essas relações justamente
porque ela faz parte da sociedade, a representa, constitui. como, então, a
escola tem percebido essas novas relações?
dentre
os muitos e relevantes aspectos abordados pelo autor, gostaria de destacar o
que Lemos define como “Leis da cibercultura”, relacionando-as às perspectivas
da educação atual, são elas:
1. Lei
da Reconfiguração, em oposição à lógica da
substituição-aniquilamento. até que ponto o medo de que o saber formal (difundido,
valorizado e repetido em livros, planos de disciplinas e práticas antigas de
professores) fosse totalmente destruído e invalidado pelo acesso ao computador
em salas de aula, demonstram um apego às práticas “bancárias” de reprodução tão
caras à escola antes da cibercultura? que tipo de saber perde espaço quando se
pretende salas de aula onde ocorram não apenas memorização e repetição, mas sim
apropriação e re-configuração, questionamento e re-criação?
2. Lei da Liberação do pólo de emissão:
além da emergência de vozes anteriormente reprimidas, há a construção de novas
formas de relacionamento social, de difusão da informação, na rede. como se posicionaria
a conjuntura formal da escolarização, suas políticas, legislação,
financiamento, estruturação física das escolas, formação docente em uma
perspectiva não polarizada? como pensar a descentralização, as distinções norte
X sul, educação regular X educação especial? a escola está preparada para ouvir
as vozes dos sujeitos que, historicamente, nela e por ela são silenciados?
3. Lei da Conectividade Generalizada:
as implicações entre a conexão móvel e a desmaterialização dos espaços-tempos (ubiquidade
da conexão humano-humano, humano-máquina, máquina-máquina). é possível se
pensar uma escola em rede? (como bem disse Dan,
os dados não devem ser nunca vistos apenas como dados.)
pensar
a cibercultura da perspectiva da educação escolar nos permite ver muitas
questões ainda abertas. não basta, por exemplo, pensar que o desenvolvimento
dos dispositivos técnicos dá conta da complexidade dessa trama que é a
cibercultura.
no
caso das pessoas com deficiência visual, por exemplo, a questão da acessibilidade
ainda se faz urgente, embora inúmeros recursos assitivos tenham sido criados, a
distribuição deles não é equânime. as tramas e polêmicas da chamada “inclusão
digital” demandam bem mais do que o mero controle maquinico do mundo: a
sobrevivência cultural, social e política de qualquer sujeito na cibercultura
ainda é algo a ser problematizado.
para
saber mais sobre acessibilidade de pessoas deficientes visuais à web, sugiro o
vídeo:
[i] LEMOS,
A. Cibercultura: alguns pontos para compreender a nossa época. In: LEMOS, A.;
CUNHA, P. (Orgs) Olhares sobre a
cibercultura. Sulina: Porto Alegre, 2003. p. 11 -23.
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