domingo, 22 de abril de 2012

cibercultura para todos?


compreender a cibercultura requer mais do que a definição do desenvolvimento técnico potencializado pelas sociedades ocidentais desde o projeto racionalista-iluminista da modernidade até nossos dias, para além disso, faz-se necessária problematizar a análise de alguns pontos emergentes (tais como: as práticas sociais, políticas, culturais, artísticas, urbanísticas, éticas, entre outros). a nova configuração comunicacional contemporânea, gestada nas/pelas tecnologias digitais de informação e comunicação nos apresentam  perspectivas vivas e pulsantes, diferente do que previu o imaginário moderno, cujo medo característico foi amplamente difundido pelo ideal da robotização e assepsia comuns à futurística do cinema.
no ensaio: Cibercultura: alguns pontos para compreender a nossa época, Lemos[i] discute esse  imaginário, as metáforas e as práticas sociais precedentes à cibercultura e suas atuais implicações/re-configurações, até as características dessa nova perspectiva sociocultural: a estrutura técnica, a difusão do acesso e suas relações com o cotidiano e as novas demandas que surgem nos aspectos legislativo, médico (as formas como entendemos e manipulamos os corpos, os cyborgs) e as questões da cidades (cibercidades) etc.
ao refletir sobre o atual contexto da comunicação e informação a que todos estamos envolvidos, devido justamente ao fato de que na origem da cibercultura estão as possibilidades planetárias da comunicação digital, ubíqua, desterritorializada, cada vez mais ampla e abrangente, como o fluxo de informações que cria-movimenta-vigia-re-configura os diversificados níveis da nossa vida cotidiana, não posso deixar de pensar em um aspecto a que Lemos não se refere diretamente, mas que, creio eu, é transversal a qualquer discussão sociocultural: a educação.
mais do que o desenvolvimento de equipamentos e técnicas, a cibercultura pressupõe uma re-configuração social, devido a uma relação simbiótica entre os elementos da tecnologia digital que se propaga e as novas práticas e relações culturais, comunicativas. pensando assim, a questão da educação se faz mais do que presente.  para ser fiel ao léxico usado pelo autor, a cibercultura fomenta a re-configuração de demandas e prática sociais, novas formas de pensar, de agir, de entender o mundo, as cidades, a informação, nós mesmos. a escola não está alheia a essas relações justamente porque ela faz parte da sociedade, a representa, constitui. como, então, a escola tem percebido essas novas relações?
dentre os muitos e relevantes aspectos abordados pelo autor, gostaria de destacar o que Lemos define como “Leis da cibercultura”, relacionando-as às perspectivas da educação atual, são elas:
1.  Lei da Reconfiguração, em oposição à lógica da substituição-aniquilamento. até que ponto o medo de que o saber formal (difundido, valorizado e repetido em livros, planos de disciplinas e práticas antigas de professores) fosse totalmente destruído e invalidado pelo acesso ao computador em salas de aula, demonstram um apego às práticas “bancárias” de reprodução tão caras à escola antes da cibercultura? que tipo de saber perde espaço quando se pretende salas de aula onde ocorram não apenas memorização e repetição, mas sim apropriação e re-configuração, questionamento e re-criação?
2. Lei da Liberação do pólo de emissão: além da emergência de vozes anteriormente reprimidas, há a construção de novas formas de relacionamento social, de difusão da informação, na rede. como se posicionaria a conjuntura formal da escolarização, suas políticas, legislação, financiamento, estruturação física das escolas, formação docente em uma perspectiva não polarizada? como pensar a descentralização, as distinções norte X sul, educação regular X educação especial? a escola está preparada para ouvir as vozes dos sujeitos que, historicamente, nela e por ela são silenciados?
3. Lei da Conectividade Generalizada: as implicações entre a conexão móvel e a desmaterialização dos espaços-tempos (ubiquidade da conexão humano-humano, humano-máquina, máquina-máquina). é possível se pensar uma escola em rede? (como bem disse Dan, os dados não devem ser nunca vistos apenas como dados.)
pensar a cibercultura da perspectiva da educação escolar nos permite ver muitas questões ainda abertas. não basta, por exemplo, pensar que o desenvolvimento dos dispositivos técnicos dá conta da complexidade dessa trama que é a cibercultura.
no caso das pessoas com deficiência visual, por exemplo, a questão da acessibilidade ainda se faz urgente, embora inúmeros recursos assitivos tenham sido criados, a distribuição deles não é equânime. as tramas e polêmicas da chamada “inclusão digital” demandam bem mais do que o mero controle maquinico do mundo: a sobrevivência cultural, social e política de qualquer sujeito na cibercultura ainda é algo a ser problematizado.

para saber mais sobre acessibilidade de pessoas deficientes visuais à web, sugiro o vídeo:
  





[i] LEMOS, A. Cibercultura: alguns pontos para compreender a nossa época. In: LEMOS, A.; CUNHA, P. (Orgs) Olhares sobre a cibercultura. Sulina: Porto Alegre, 2003. p. 11 -23.

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