domingo, 22 de abril de 2012

cibercultura para todos?


compreender a cibercultura requer mais do que a definição do desenvolvimento técnico potencializado pelas sociedades ocidentais desde o projeto racionalista-iluminista da modernidade até nossos dias, para além disso, faz-se necessária problematizar a análise de alguns pontos emergentes (tais como: as práticas sociais, políticas, culturais, artísticas, urbanísticas, éticas, entre outros). a nova configuração comunicacional contemporânea, gestada nas/pelas tecnologias digitais de informação e comunicação nos apresentam  perspectivas vivas e pulsantes, diferente do que previu o imaginário moderno, cujo medo característico foi amplamente difundido pelo ideal da robotização e assepsia comuns à futurística do cinema.
no ensaio: Cibercultura: alguns pontos para compreender a nossa época, Lemos[i] discute esse  imaginário, as metáforas e as práticas sociais precedentes à cibercultura e suas atuais implicações/re-configurações, até as características dessa nova perspectiva sociocultural: a estrutura técnica, a difusão do acesso e suas relações com o cotidiano e as novas demandas que surgem nos aspectos legislativo, médico (as formas como entendemos e manipulamos os corpos, os cyborgs) e as questões da cidades (cibercidades) etc.
ao refletir sobre o atual contexto da comunicação e informação a que todos estamos envolvidos, devido justamente ao fato de que na origem da cibercultura estão as possibilidades planetárias da comunicação digital, ubíqua, desterritorializada, cada vez mais ampla e abrangente, como o fluxo de informações que cria-movimenta-vigia-re-configura os diversificados níveis da nossa vida cotidiana, não posso deixar de pensar em um aspecto a que Lemos não se refere diretamente, mas que, creio eu, é transversal a qualquer discussão sociocultural: a educação.
mais do que o desenvolvimento de equipamentos e técnicas, a cibercultura pressupõe uma re-configuração social, devido a uma relação simbiótica entre os elementos da tecnologia digital que se propaga e as novas práticas e relações culturais, comunicativas. pensando assim, a questão da educação se faz mais do que presente.  para ser fiel ao léxico usado pelo autor, a cibercultura fomenta a re-configuração de demandas e prática sociais, novas formas de pensar, de agir, de entender o mundo, as cidades, a informação, nós mesmos. a escola não está alheia a essas relações justamente porque ela faz parte da sociedade, a representa, constitui. como, então, a escola tem percebido essas novas relações?
dentre os muitos e relevantes aspectos abordados pelo autor, gostaria de destacar o que Lemos define como “Leis da cibercultura”, relacionando-as às perspectivas da educação atual, são elas:
1.  Lei da Reconfiguração, em oposição à lógica da substituição-aniquilamento. até que ponto o medo de que o saber formal (difundido, valorizado e repetido em livros, planos de disciplinas e práticas antigas de professores) fosse totalmente destruído e invalidado pelo acesso ao computador em salas de aula, demonstram um apego às práticas “bancárias” de reprodução tão caras à escola antes da cibercultura? que tipo de saber perde espaço quando se pretende salas de aula onde ocorram não apenas memorização e repetição, mas sim apropriação e re-configuração, questionamento e re-criação?
2. Lei da Liberação do pólo de emissão: além da emergência de vozes anteriormente reprimidas, há a construção de novas formas de relacionamento social, de difusão da informação, na rede. como se posicionaria a conjuntura formal da escolarização, suas políticas, legislação, financiamento, estruturação física das escolas, formação docente em uma perspectiva não polarizada? como pensar a descentralização, as distinções norte X sul, educação regular X educação especial? a escola está preparada para ouvir as vozes dos sujeitos que, historicamente, nela e por ela são silenciados?
3. Lei da Conectividade Generalizada: as implicações entre a conexão móvel e a desmaterialização dos espaços-tempos (ubiquidade da conexão humano-humano, humano-máquina, máquina-máquina). é possível se pensar uma escola em rede? (como bem disse Dan, os dados não devem ser nunca vistos apenas como dados.)
pensar a cibercultura da perspectiva da educação escolar nos permite ver muitas questões ainda abertas. não basta, por exemplo, pensar que o desenvolvimento dos dispositivos técnicos dá conta da complexidade dessa trama que é a cibercultura.
no caso das pessoas com deficiência visual, por exemplo, a questão da acessibilidade ainda se faz urgente, embora inúmeros recursos assitivos tenham sido criados, a distribuição deles não é equânime. as tramas e polêmicas da chamada “inclusão digital” demandam bem mais do que o mero controle maquinico do mundo: a sobrevivência cultural, social e política de qualquer sujeito na cibercultura ainda é algo a ser problematizado.

para saber mais sobre acessibilidade de pessoas deficientes visuais à web, sugiro o vídeo:
  





[i] LEMOS, A. Cibercultura: alguns pontos para compreender a nossa época. In: LEMOS, A.; CUNHA, P. (Orgs) Olhares sobre a cibercultura. Sulina: Porto Alegre, 2003. p. 11 -23.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

sobre a ausência de computadores e a gramática do tempo


eu já cursava a faculdade de pedagogia (na uneb, campus 12, em guanambi) quando, pela primeira vez, o uso do computador me foi apresentado como uma obrigação: uma professora exigiu que um relatório final da disciplina fosse entregue digitado, exclusivamente.
isso acondeceu faz quase uma década, mas parece uma era longínqua: os computadores já não eram vistos (tanto) como um item de filme futurista, eu até já tinha feito um curso de computação (sim, houve um tempo em que a gente precisava freqüentar um curso para aprender a manusear o mouse, o teclado, abrir janelas e tal, porque internet mesmo a gente não tinha, custava uma fortuna a conexão discada, principalmente no interior do estado.) mas naquela época, qualquer computador valia mais do que o nosso carro e nem mesmo a uneb disponibilizava algum para os alunos. resultado: fiz o trabalho no meu caderno, depois paguei alguém para digitar e imprimir, para, enfim, entregá-lo à professora.
quando da divulgação das notas, aconteceu uma tragédia: soubemos que alguém havia recebido uma nota zero. a moça era inteligente, ótima aluna, já trabalhava como professora, de língua portuguesa. não acreditamos. ao ser interrogada, a professora justificou: a nota devia-se ao fato de o trabalho ter sido entregue manuscrito.
[só quem fez magistério no século passado entenderá o que digo: houve mesmo um tempo em que trabalho escolar feito com esmero implicava letra caprichada e até ilustrações em cantos estratégicos da página.]
nota zero deve doer muito, todos nos sentimos injustiçados e por mais que a professora argumentasse que estávamos já na universidade, que não era admissível um trabalho manuscrito, a moça chorando sem parar, sabíamos que ela morava em um município bem pequeno, trabalhava em outro e vinha estudar em um terceiro, Guanambi, onde a universidade não oferecia um único computador para os alunos, mas naquele momento, soubemos: em seu município não havia lan houses, ela nem mesmo tinha eletricidade em casa. a professora, por fim, permitiu um prazo extra para a entrega do relatório, digitado, claro.


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meu computador morreu. isso foi no ano passado. não pude comprar outro ainda. desde então, sobrevivo entre lan houses mas principalmente nos campi da ufba: teatro, ici, educação e são lázaro. poderia desfiar um longo rosário sobre o que é depender de meia dúzia de máquinas limitadas, que quando funcionam, restringem boa parte dos sites/conteúdos que preciso abrir, daí que volta e meia tenho que pagar para imprimir algo que me interessa para ler depois.


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o Boaventura de Souza Santos, no livro gramática do tempo: para uma nova cultura política discute as possibilidades de uma “reinvenção da emancipação social”, através da análise das “alternativas à globalização neoliberal e ao capitalismo global produzidas pelos movimentos sociais e pelas organizações não governamentais na sua luta contra a exclusão e a discriminação em diferentes domínios sociais e em diferentes países” (p. 93). para tanto, o autor faz uma profunda crítica à tradição científica e filosófica ocidental e ao modelo de racionalidade que ela forjou, a chamada de “razão indolente” a qual sempre pretendeu transformar interesses hegemônicos em conhecimentos verdadeiros, obtendo como efeitos não só uma compreensão limitada do mundo, como uma compreensão limitada de si mesma e a produção de não-existências (assentadas na lógica da monocultura do saber, da monocultura do tempo linear, e da classificação social). para superar as ausências dessa perspectiva, Boaventura propõe a substituição das monoculturas por ecologias (dos saberes, das temporalidades, dos reconhecimentos, das trans-escalas, das produtividades), para expandir o domínio das emergências (das experiências sociais possíveis), propõe como campos sociais mais importantes "onde a multiplicidade e diversidade mais provavelmente se revelarão” as experiências de conhecimentos; de desenvolvimento, trabalho e produção; de reconhecimento; de democracia; de comunicação e informação.
este último campo, o das experiências de comunicação e informação envolve os “diálogos e conflitos suscitados pela revolução das tecnologias de comunicação e de informação, entre os fluxos globais de informação e os meios de comunicação social globais, por um lado e, por outro, as redes de comunicação independente transnacionais e os media independentes alternativos” (p. 122)
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cibercultura é um termo da moda. mas o que dizer dos que ainda não têm acesso aos elementos básicos da urbis moderna, como a eletricidade? e os "atrasados" da pós-modernidade que não possuem computador/internet?
hoje um computador não vale mais o preço de um carro e todo mundo tem um. todo mundo, será? um notebook vale 3 ou 4 salários inteiros, mais ou menos. no caso denunciado por Sigmar, das crianças asiáticas que pelo trabalho nas fábricas de iPhone, iPad recebem apenas 0,70 centavos por 16 horas de trabalho, penso em quantas centenas de dias sem alimento-roupas-escola-água-eletricidade-remédio-etc seriam necessários para que alguma delas conseguisse comprar um iMac, produto-objeto-de-desejo-mundial fabricado pela mesma empresa que as escravisa, a Apple.

a roda do tempo não para de girar, principalmente para os conectados. cada vez mais decisões que impactam a vida social são fomentadas na Web, para e por meio dela.
então, neste tempo, o que significa ser um/a:
          estudante que, como eu, não têm um pc?
          idoso que não sabe usá-lo?
          deficiente que não conte com uma adaptação necessária?
          analfabeto?
         habitante das muitas zonas sem cobertura da inetnet/eletricidade, Brasil a fora?
         ou
         criança asiática que precise comer após 16 horas de trabalho escravo, assim como outras tantas crianças pelo mundo, vítimas da exploração capitalista em vigor pelas corporações que regem o mundo hoje (conforme já discuti na postagem sobre o filme "a corporação") ?

somos excluídos.
mas estamos de todo alheios aos impactos-consequências-reconfigurações que as TIC permeiam-fomentam?
a complexidade dessa questão me faz pensar que, se não conseguimos superar tantas ausências de forma igualitária, construir uma nova perspectiva, baseada na colaboração, no intercâmbio de saberes-poderes, na comunicação em rede, elementos fundantes da cibercultura, se fazem cada vez mais urgentes: para todos.

estes pontos de muitos modos se articulam, num trançar dos fios conceituais, com críticas-projeções que tenho lido nos autores que consideram a cibercultura como nascedouro de um novo tipo de democracia, a ciberdemocracia. mas, por hora, sigo, com Boaventura me perguntando pelas (possíveis?) alternativas à teoria geral estabelecida, como também pelas possibilidades de transformação social e superação das injustiças, das desigualdades, da padronização do saber. enfim: o sentido da luta pela emancipação social.



para saber mais:

Boaventura: http://www.boaventuradesousasantos.pt/pages/pt/homepage.php





segunda-feira, 9 de abril de 2012

tantas leituras, tantos leitores


caminhos da leitura e dos leitores até o ciberespaço

é certo que a leitura e a escrita constituem-se como bens culturais e historicamente construídos, cuja apropriação favorece aos grupos sociais que os detém, em detrimento de outros que não podem, não conseguem, ou são impedidos de acessá-los.
apesar disso, de tão intrínsecos ao nosso modo cotidiano de ser e agir, a leitura e a escrita, bem como suas práticas e suportes, parecem ser equânimes e eternos. mas não são. pessoas como Roger Chartier , um proeminente historiador da leitura francês, têm se dedicado a investigar as múltiplas histórias que o ato de ler e escrever encerram: a origem, a difusão, a valorização (ou impedimento), as mutações que a leitura, seus suportes e prática vêm sofrendo e suas respectivas implicações sociais e culturais.
no livro “Navegar no ciberespaço: o perfil do leitor imersivo”,
Lúcia Santaella diz que os estudos sobre a leitura têm merecido cada vez mais destaque, na medida em que a nossa sociedade se dá conta das (e se assombra com) as revoluções atualmente presenciadas com a criação do ciberespaço e a subseqüente popularização dos seus suportes e estruturas para o texto escrito, como os cd-rom, a hipermídia, a internet. esse contexto traz promessas e incertezas: o potencial da leitura no computador, ao mesmo tempo que poderia nos dar acesso ao sonho de ter toda uma biblioteca de Alexandria ao alcance de um “clique”, paradoxalmente, talvez também possa significar o desaparecimento da cultura escrita.
sem adentrar na discussão sobre o futuro impresso nesse novo contexto, Santaella buscará traçar as características perceptivo-cognitivas de um novo tipo de leitor, emergidas através da diversidade dos atuais suportes eletrônicos e estruturas híbridas e alineares do texto no ciberespaço.
para mapear esse novo leitor, Santaella realiza uma “busca de determinações passadas que possam ajudar a compreender os vetores do presente”, com isso, fundamenta a sua classificação do que seriam os três tipos de leitores, a saber: 1. o leitor contemplativo, meditativo (leitor do
códex, silencioso, fixado em objetos e imagens estáveis, localizáveis, ele presenciou a difusão da imprensa) 2. o leitor movente, fragmentado (leitor dos jornais e do cinema, oriundo do frenesi da modernidade, habitante dos centros urbanos, com suas notícias rápidas e fragmentadas, leitor das imagens, da publicidade); 3. o leitor imersivo, virtual (leitor do computador, que navega pelas infovias do ciberespaço “entre nós e nexos construindo roteiros não lineares, não seqüenciais”).

por meio da pesquisa de campo e do levantamento teórico fundamentado nas ciências cognitivas que o livro apresenta, Santaella explorará justamente este último tipo de leitor, definindo-o e caracterizando-o.



sobre leitores cegos: outras histórias


seria possível tomar por base o mapeamento perceptivo que Santaella realiza e relacioná-lo às práticas de leitura comuns à um grupo bem particular de leitores, as pessoas cegas, grupo este a que a autora não se refere, mas que igualmente tem transitado pelas revoluções nos modos de ler? é certo que muitas são as particularidades da exposição de Santaella, como a fixação de sua análise nos hábitos de leitores a part ir do codex, não se referindo aos usos do papiro nem da leitura em voz alta, através de ledores (prática bastante comum principalmente na idade média), enfocando o desenvolvimento da leitura silenciosa, visual. apesar dessas e outras nuances, penso ser possível explorar o mapeamento que ela faz para melhor compreender o perfil dos leitores cegos, através das suas práticas de leitura, e das tecnologias usadas. assim, temos:


1. o leitor cego contemplativo: desde a antiguidade, os cegos valiam-se da leitura realizada por ledores (pessoas que lêem em voz alta tornando os conteúdos escritos acessíveis a pessoas com limitação visual – idosos ou cegos – ou que não conhecem o código escrito, como os analfabetos as crianças, por exemplo), mas apenas na modernidade, com o advento da escrita em relevo, desenvolvida por Luis Braille, na França, este leitor também pôde escrever. os livros impressos em Braille começam a se difundir, paralelamente à criação de instituições especializadas na educação dessas pessoas (como o IBC e o ICB)


[descrição da imagem: criança cega escreve em braille através de uma reglete e punção]



[descrição da imagem:criança cega lê livro impresso em braille, ao lado, uma máquina de datilografia braille]




2. o leitor cego movente, fragmentado: a difusão dos jornais e principalmente dos rádios, dos gravadores que possibilitam através das fitas k7 (e depois com os CDs) a gravação de leituras (livros falados) e assim a composição de audiotecas.


3. o leitor cego imersivo, virtual: os leitores cegos têm acesso ao computador por meio de tecnologias assistivas - ajudas técnicas que permitem ou facilitam este acesso com autonomia, através de softwares ledores de tela, que lêem os arquivos selecionados, valendo-se de programas de síntese de voz. os mais usados são: o Dosvox, o NVDA, o Jaws (sobre tecnologias assistivas, tomo por base os trabalhos do professor Teófilo Galvão Filho).




[descrição da imagem: duas pessoas utilizam o computador através de software adaptado para pessoa com baixa visão]


[descrição da imagem: duas pessoas cegas utilizam o computador, por meio de ledor de tela]





podemos perceber que para as pessoas com deficiência visual, cegas ou com visão reduzida, que durante séculos estiveram alijadas da cultura letrada, a atual possibilidade de acesso ao saber e ao poder que a leitura representa constitui-se como elemento fundamental para a modificação dos mecanismos de segregação a que, historicamente, estes sujeitos estiveram submetidos, assim como o acesso à educação, ao trabalho, à vida social.
assim como ocorre com as pessoas que enxergam, o computador subsidia uma revolução nos modos de ler e escrever também para os cegos, pois permite o acesso a saberes e informações com os mais diversos graus de complexidade, com maior rapidez e comodidade, além da possibilidade da comunicação e interação à distância, em tempo real. no entanto, as implicações dessa nova forma de leitura realizada pelos cegos, a leitura imersiva, virtual, têm preconizado uma série de discussões que envolvem elementos como uma suposta preferência pela leitura no computador, baseada na voz sintetizada de um programa, em detrimento de uma leitura ‘direta’, em efetivo con-tato com o livro impresso. esse fenômeno é chamado de “desbraillização”. (sobre este assunto, sugiro a análise-militância da professora Joana Belarmino)


inseridos em um mundo de predomínio do escrito impresso de maneira inacessível, em tinta, cores e formas que eles não podiam acompanhar, a inserção dos cegos na cultura do impresso se deu de maneira revolucionária e indelével, através do sistema Braille. porém, aliados à histórica limitação ao acesso e uso do Braille, atualmente ainda coexistem inúmeros outros fatores que obstaculizam à leitura pelos cegos: o reduzido número de bibliotecas públicas e escolares com acervo adaptado; o alto custo de material (impresso ou dos recursos de acessibilidade digital) frente à realidade de pobreza a que a maioria dos deficientes se encontra no Brasil; além das barreiras existentes em espaços culturais como museus, teatros e cinemas, como a limitada prática da audiodescrição*.


esses aspectos devem ser problematizados se quisermos efetivamente superá-los, principalmente no tocante às condições precárias de acesso à cultura e à educação, obstáculos intensificados quando considerado como sujeito leitor o deficiente visual.


ao perceber que é historicamente variável o modo como o ensino da leitura é compreendido e efetivado nos diferentes níveis de escolarização, bem como seus respectivos objetivos, fundamentos e métodos, tenho compreendido que o acesso (ou impedimento) à leitura tem se dado de maneiras múltiplas, principalmente na sociedade atual. a escola, ambiente privilegiado de formação de leitores, também precisa refletir sobre as implicações que os suportes usados podem gerar para o processo de ensino e aprendizagem da leitura. no caso dos estudantes com deficiência visual, faz-se urgente compreender e discutir as implicações para aprendizagem e formação desses educandos, oriundas da leitura não mais na página impressa em Braille, mas agora através de programas que literalmente lêem em voz alta o que se encontra escrito na tela do computador.





* Audiodescrição é tradução em palavras de imagens estáticas (pinturas, esculturas, fotografias, ilustrações de livros didáticos etc) ou de materiais audiovisuais (filmes, programas televisivos, espetáculos teatrais, de dança etc), tornando essas informações visuais acessíveis às pessoas cegas ou com baixa visão.





obs: todas as fotografias são do Arquivo IBC



fontes:

SANTAELLA, Lúcia. Navegar no ciberespaço: o perfil do leitor imersivo. São Paulo: Paulus, 2004.


para saber mais sobre leitura e deficiência visual:


curso virtual de braille e texto interessante sobre o braille


outras referências:



CHARTIER, R. Lo popular: entre desprecio y mercado, entre creencia y distancia. In: BARBOSA, M. H. S; RETTENMAIER, M; ROSING, T. M. K (orgs.) Leitura, identidade e patrimônio cultural. Passo fundo: VTF, 2004.
___________. Os desafios da escrita. Tradução de F. M. E. Moretto. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
___________. Práticas de leitura. Tradução de C. Nascimento. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
___________. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Tradução de R. C. C de Moraes. São Paulo: Editora UNESP/Imprensa oficial do Estado de São Paulo, 1999.
___________. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Tradução de M. Del Priore. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1994.
DIDEROT, D. Carta sobre os cegos endereçada àqueles que enxergam. Tradução de A. G da Silva. São Paulo: Editora Escala, 2006.
GALVÃO FILHO, T. A. Tecnologia assistiva para uma escola inclusiva: apropriação, demanda e perspectivas. 2010. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010.
MARTINS, B. S. E se eu fosse cego? Narrativas silenciadas da deficiência. Lisboa, Portugal: Colecção Saber Imaginar o social, Edições Afrontamento, 2006.
SILVA, L. M. da. Qualquer maneira de ler vale a pena: sobre leituras, ledores e leitores cegos. Presença Pedagógica. Belo Horizonte/MG, v. 15, p. 12-17, 2009.
___________. Diferenças negadas: o preconceito aos estudantes com deficiência visual. Salvador: EDUNEB, 2008.

a corporação e a cibercultura - aberturas e entrecruzamentos




empresas de produtos diferentes como defensivos agrícolas, roupas, pneus, refrigerantes e até remédios, ao negociarem seus produtos, podem agir como psicopatas? de forma geral, claro que já ouvimos falar que instituições financeiras e suas grandes marcas têm notória voracidade por lucros máximos. mas, até que ponto a falta de controle público sobre as ações dessas instituições corporativas, parte constituinte da sociedade atual, tem influenciado e causado o mal à vida das pessoas?


[descrição da imagem: a capa brasileira do filme A Corporação: sobre imagens de entrevistados no filme, que formam um tapete vermelho, anda um vulto negro de homem, com pasta na mão, vestindo terno e chapéu. de branco, além das letras com o nome do filme, há um desenho de uma auréola na cabeça do homem e também um rabo de demônio]




com o objetivo de investigar e denunciar os impactos da progressiva hegenomia das corporações Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan produziram o documentário the corporation. através de entrevistas, de análise de reportagens, filmes, publicidades, documentos históricos etc, delineia-se o quadro de estratégias de dominação e concepções de soberania e impunidade que corporações (representadas por alguns de seus ilustres diretores e presidentes) usam para justificar seus os atos mais funestos. Noam Chomsky e Michael Moore, entre outros, apresentam um contra balanço: um ponto de crítica e reflexão sobre como a atuação das corporações tem influenciado a história humana, bem como suas implicações futuras.


as corporações nasceram durante a revolução industrial, inicialmente como pequenos grupos licenciados e regulamentados pelo estado para alguma tarefa, como a construção de uma ponte, por exemplo. após revolução industrial, e da guerra civil norte-americana e das novas demandas sociais de urbanização e industrialização, como a construção de ferrovias, bancos, fábricas ampliaram seus lucros. porém, o que determinou a soberania e o poder das corporações, tal qual as conhecemos hoje, foi principalmente a manobra de seus advogados para equipará-las legalmente aos direitos dos cidadãos, totnando-as igualmente um tipo de pessoa, a pessoa jurídica.




[descrição da imagem: close do rosto de uma moça branca, sua boca está tampada por uma máscara feita com o código de barras]

de lá para cá, com o avanço da economia global, se poder só aumenta. as corporações têm se constituído através de práticas sociais cuja perversidade e desprezo pelo alheio pode ser comparada à psicopatia. determinam legislações, apropriam-se de saberes e práticas, fundamentadas em ideais de faturamento máximo, se valem até da privatização de elementos antes impensados, através da criação de patentes ou da pura usurpação, como aconteceu com a água boliviana, a produção de sementes estéreis na Índia e o promissor comércio de genes. em busca de mais lucro, as corporações privatizaram a vida.


as corporações não enxergam qualquer limite. no documentário são apresentados exemplos da relação de empresas em eventos aberrantes, com o fornecimento de equipamentos pela IBM para a manutenção logística dos campos de concentração nazistas; as denúncias de manipulação da mídia, como no caso da FOX que se dobrou frente ao poder de uma empresa (Monsanto) que vende hormônio para vacas leiteiras que causam sérios problemas de saúde dos animais e das pessoas que consumirem seu leite e a não menos impactante e escandalosa relação da Wal-Mart (e outras marcas famosas como a Nike) com a submissão de sul americanos e asiáticos a condições precárias de trabalho, escravagistas até.


o documentário escancara algumas das mais perversas faces do capitalismo. fico pensando como nós, habitantes de um mundo com tantas nuances e símbolos podemos nos ‘armar’ contra os ataques de interesses tão sutis, quase invisíveis, como o da mídia, da propaganda, da cultura manipulada que, a todo custo, tenta impor seus desejos por objetos tão desnecessários quanto efêmeros, fortalecidos pela lógica de consumo. somos mesmo tão frágeis e manipuláveis como crianças em frente à TV, em todos os aspectos da nossa vida?


no Brasil, no tocante à educação, por exemplo, temos convivido com a assunção de modelos, práticas e técnicas de ensino determinadas por organismos internacionais, muitos deles diretamente envolvidos com a perpetuação do modelo capitalista vigente. equipamentos, legislações, paradigmas educacionais são importados e implantados aqui.


é emblemático o recente caso da chegada oficial da cultura digital nas escolas. se pensarmos um pouco, logo diagnosticaremos as bases epistemológicas que justificaram tanto a aquisição, quanto os modelos seguindo para a suposta difusão do computador nas escolas. os laboratórios de informática, bem como os softwares adotados, quando funcionam, via de regra submetem-se a interesses ditos ‘pedadógicos’, mas que, na realidade, apenas reproduzem o modelo educacional anterior. daí a pertinência do questionamento que Pierre Lévy faz no seu livro Cibercultura: bastaria transpor às novas mídias os antigos e clássicos conhecimentos, ou precisamos reconhecer a atual mutação das nossas relações com o saber propiciadas pela criação da cibercultura?



acredito que um movimento de superação dos problemas sociais que temos hoje atravessem uma reflexão sobre esses problemas, suas faces mais esquivas, sempre nos perguntando pelos fundamentos de nossas práticas: a que objetivos elas servem? para benefício de quem as nossas ações se direcionam?


na era da cultura digital, com a comunicação em rede, talvez sejamos mais capazes de expor os nós e as fissuras do sistema vigente, talvez possamos superá-lo. para isso, bastaria apenas o desenvolvimento técnico, com seus produtos e hábitos igualmente forjados no seio do consumo volátil de interesses hegemônicos?. claro que não. the corporation mostra bem como a produção de ‘bons’ produtos e serviços nem sempre alia-se ao senso de responsabilidade socio ambiental. antes, visam ao lucro. é urgente, portanto, uma profunda mudança de mentalidade.


a cibercultura permite outros pontos de (inter)ação. com Lévy, é preciso considerar o ciberespaço para além desenvolvimento e uso de dispositivos técnicos e a cibercultura não apenas como o trânsito por essas vias, as rotas de acesso à informação, mas como um movimento social, como “prática de comunicação interativa, recíproca, comunitária e intercomunitária, o ciberespaço como horizonte de mundo virtual e vivo, heterogêneo e intotalizável no qual cada ser humano pode participar e contribuir” (p. 128). esse movimento é regido pelos princípios da interconexão (que tece um universal pelo contato da comunicação interativa e constitui a humanidade em um contínuo sem fronteiras ); da criação de comunidades virtuais (independente das distâncias geográficas, pessoas se reúnem em um projeto de cooperação ou troca de afinidades, conhecimentos, projetos mútuos. suas regras e objetivos exploram as novas formas de opinião pública.); e da inteligência coletiva (“veneno e remédio do ciberespaço” constitui-se também como sua finalidade última)


o ciberespaço não é apenas a internet. é antes o “grande oceano do novo planeta informacional”, alimentado por muitos rios: redes independentes desde universidades ar as mídias clássicas ( bibliotecas, museus, jornais, televisão, etc), daí sua complexidade, suas rotas de fuga.


assim como mesmo dentro da poderosa indústria cinematográfica norte-americana, um documentário como the corporation não só é produzido, como divulgado (em espaços alternativos, mas é) e chega a ser premiado, podemos perceber que sistema tem brechas. podemos escancará-las. agora, em rede.






fontes:

o documentário The Corporation está disponível no youtube e no google vídeos
Lévy, P. Cibercultura. São Paulo: 34, 1999 disponídel aqui