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| Professora Bonilla |
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| Ugo |
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| Sigmar e Ugo |
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| Santana, Maria Helena, Handherson e Eu |
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| Aula no auditório, com transmissão da rádio Faced: Sigmar, Maria Helena, Priscilar, Harley, Irinaldo e Handherson. |
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| a turma (quase) toda! valeu, gente! |
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| Ugo |
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| Aula no auditório, com transmissão da rádio Faced: Sigmar, Maria Helena, Priscilar, Harley, Irinaldo e Handherson. |
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[descrição da imagem:criança cega lê livro impresso em braille, ao lado, uma máquina de datilografia braille]
[descrição da imagem: duas pessoas utilizam o computador através de software adaptado para pessoa com baixa visão]
[descrição da imagem: duas pessoas cegas utilizam o computador, por meio de ledor de tela]outras referências:
[descrição da imagem: a capa brasileira do filme A Corporação: sobre imagens de entrevistados no filme, que formam um tapete vermelho, anda um vulto negro de homem, com pasta na mão, vestindo terno e chapéu. de branco, além das letras com o nome do filme, há um desenho de uma auréola na cabeça do homem e também um rabo de demônio]
[descrição da imagem: close do rosto de uma moça branca, sua boca está tampada por uma máscara feita com o código de barras]
fontes:
o documentário The Corporation está disponível no youtube e no google vídeosem busca do tempo perdido, a monumental obra de marcel proust foi escrita entre 1908 e 1922. nela encontramos uma narrativa encharcada de remissões de tempos fugidios, em que salões de festas, ações políticas, valores morais e sexuais, hábitos cotidianos e concepções artísticas já não correspondiam às novas expectativas que rompiam com a chegada do século que principiava. proust coloca na boca de seu narrador inúmeras e profundas reflexões sobre os impactos de tais mudanças na vida dos franceses de então.
desde proust, no transcorrer do século 20, a humanidade tem passado por transformações tão radicais quanto imprevisíveis. evidentemente, mesmo antes, desde quando os humanos resolveram descer das árvores e andar sobre a terra, o planeta inteiro tem assistido as modificações causadas por nossa presença. ao longo dessa história, no entanto, a alguns momentos coube o antropônimo de revolução. a mais recente delas acontece justamente no decorrer do século passado, no entremeio entre o momento em que marcel proust procurava seu tempo perdido dentro de uma única xícara de chá e a posterior época da juventude de zygmunt bauman, o qual vivenciaria uma polônia cujos sortilégios trazidos ao longo do século, mudaria radicalmente seu destino.
assim, zygmunt bauman assistiu a modernidade se transformar. desde a infância deste sociólogo, a modernidade, com seus valores centrados na crença da ordem e da infabilidade da ciência e da racionalidade, sustentadas pela ordenação produtiva que continha os ideais do desenvolvimento, do progresso iluminista, capitalista e laico, a modernidade e sua solidez catedrática, previsível, organizada, em um dado momento do século 20 se transformou radicalmente.
é justamente essa transformação que bauman quer compreender.
na internet está disponível um vídeo no qual esse simpático senhor de 86 anos, sentado em uma poltrona confortável, ladeado de livros, direto de sua casa em londres, no inverno de 2011, fala ao brasil. apesar da voz por vezes um tanto quanto fraca, denotando o peso de sua idade, com bastante lucidez, ele faz uma profunda reflexão de uma época que não existe mais, remetendo-se a exemplos de a sua infância e juventude em uma europa já praticamente esquecida, cujas formas de vida, valores e saberes, nós, habitantes do mundo atual, praticamente ignoramos.
convidado pelo fronteiras do pensamento, bauman apresenta na entrevista gravada, algumas reflexões que vêm atravessando toda a sua vasta obra onde conceitua a atual fase da história como pós-moderna. suas análises abordam as radicais mudanças ocorridas na condição social ao longo do século 20, na medida em que as bases de uma sociedade de produção abriram espaço para a criação de uma sociedade de consumo. por outro lado, aborda também o processo de fragmentação da vida, característica intrínseca dessa nova era. agora, chamamentos existencialistas como o do filósofo francês jean paul sarte, nos idos anos da juventude de bauman o qual requisitara que cada um dos humanos tomasse as rédeas do próprio destino, assegurando o projet de la vie, o projeto de vida, construído sistemática e processualmente, ano a ano; essa idéia já não impressionaria os jovens de hoje, pelo contrário. atualmente temos dificuldade de projetarmos qualquer expectativa futura. a vida agora é dividida em episódios: não podemos saber o que nos acontecerá num intervalo curto de tempo, quanto mais programar uma vida inteira.
as sociedades foram individualizadas, perdemos assim a concepção de pertencimento a grupos sociais, comunidades, movimentos políticos. tendemos a redefinir o significado e os propósitos de nossas vidas, a felicidade pretendida, como algo individual, pessoal, daí a crescente importância da identidade como categoria fundamental no mundo de hoje. a identidade criada e constantemente recriada por cada indivíduo.
neste mundo pós-moderno, somos apresentados a um contexto diverso daquele vivido por bauman na sua infância e também do rememorado por proust, agora conflitos eclodem em várias áreas. o mal estar na nossa civilização é esgarçado por questões políticas, econômicas, por exemplo, através das quais assistimos à mutação da democracia, cada vez mais globalizante, cada vez menos interessada na autonomia individual. há o acirramento das desigualdades sociais e a nova conjuntura de relações promovidas pela popularização das tecnologias da comunicação, nem sempre associadas à discussões de seus impactos e perspectivas (qual o sentido de amizade para os jovens de hoje que se gabam por adicionar em um único dia 500 pessoas como novos amigos no facebook?). essas e outras questões nos fazem refletir sobre a condição humana nessa modernidade líquida: o individualismo, a fragmentação, o consumismo, características ainda vigentes na era da conexão em rede.
seria o início de uma nova forma de vida ou um período de transição histórica de um certo tipo de ordem social para outro?
se o existencialismo já havia nos previnido que o inferno são os outros, agora, prontos a descartar relações tão logo desconectemos/deletemos/ignoremos alguém em uma rede social qualquer, que nova configuração social estamos construindo?
[outro dia, a @juliana_cunha andou se perguntando sobre isso, e escreveu o texto: rRe-humilhação de anônimos. leia aqui]
a ambivalência da vida humana, conforme bauman, habita a (nem sempre equilibrada) busca entre segurança e liberdade. o dilema consiste na mútua e irrevogável exclusão dessas bênçãos, e pior: qualquer uma sem a outra se torna uma maldição.
[um amigo francês me contou uma história sobre alguém que queria ter duas coisas ao mesmo tempo e acabava sem nenhuma delas. ele finalizou a história com um velho ditado de seu país: não se pode ter a manteiga e o dinheiro da manteiga.]
atualmente só o que queremos é ter tudo. quanto mais, melhor. e ainda: ter é sinônimo de felicidade: rápida. fugaz. doce. ao mesmo tempo. intensamente.
daí, fico pensando na proposta de bauman: reencontrar no exemplo socrático de auto criação da própria vida uma saída para o vazio massificante dos tempos atuais.
fico pensando também na cena proustiana do reencontro com o passado em gostos-cheiros-perfumes que nos trazem relações-experiências-conflitos-esperanças, enfim, memórias que, como uma obra literária, são capazes de nos manter em contato com o desejo humano por felicidade imerso em expectativas de encontro com a beleza e a reflexão.
como ficaremos entre uma xícara de chá que nos desvela o passado e uma taça de cicuta resultado na incursão sem medo no futuro?

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
o mundo não é mais o mesmo: o mundo mudou. nas ruas, nas escolas, na tv, até nas igrejas e no senado federal, nos bares, lanchonetes, nas salas de esperas dos consultórios médicos ou nas conversas pela internet, ou nos almoços em família, a todo instante alguém diz: o mundo mudou.
e mudou mesmo. todos nós, homens, mulheres, percebemos as mudanças: o projeto de urbanização do país levou a população para as cidades que com seus edifícios-avenidas-automóveis-viadutos-horários-buzinas-poluição etc instituem a urgência, a pressa. mudou também a forma como habitamos o planeta: com a interconexão comercial, midiática e comunicacional temos ignorado cada vez mais as antes tão significativas barreiras geográficas: agora o mundo inteiro é uma simples aldeia. mudaram também nosso valores éticos e morais, a forma como nos relacionamos uns com os outros. nas instituições que criamos para vivenciar essas relações, outrora tão importantes, até mesmo indispensáveis à vida em nossa sociedade, a mudança é tamanha que, todos dizem, as deixaram em crise: a família, a igreja, a cadeia, a escola, todos percebem, não são mais as mesmas. assim é que a sociedade ocidental tem experimentando, cada vez mais, as delícias e as dores de ser o que é: tem a verdade e o dom de iludir.
zygmunt bauman interessa-se justamente em compreender como essas mudanças têm se constituído, analisando-as de uma perspectiva um pouco diferente das demais pessoas. zygmunt bauman é um famoso sociólogo e como tal visa a análise apurada de comportamentos sociais que passam despercebidos a maioria das pessoas. de acordo com a definição desse autor, o sociólogo é aquele que, assim como o poeta, deve incessantemente tentar "perfurar as muralhas do óbvio e do evidente, da moda ideológica do dia cuja trivialidade é tomada como prova de seu sentido" (p. 233). a busca por tentar demolir tais muralhas, vocação tanto do sociólogo quanto do poeta, assemelha-se a obra da história: é uma buscar por descobrir algo (situações, possibilidades) já existente, mas oculto. mas, além disso, a "vocação da sociologia" exigiria ainda uma outra corrente: como os artistas e poetas sem pátria, cuja obra e reflexões são aprimoradas no exílio, o sociólogo necessita do distanciamento, do passar do tempo, para aprimorar sua capacidade de atuação, revelando aquilo que está para além do óbvio, sem fugir da responsabilidade da escolha, (afinal, a sociologia nunca é neutra). bauman nos alerta que será sempre indispensável assegurar que "essas escolhas sejam verdadeiramente livres e que assim continuem, cada vez mais, enquanto durar a humanidade. " (p. 246)
com o distanciamento propiciado pelos seus longos anos vida (já que nascido em 1925), do tempo de reflexão advindo da sexagenária experiência como professor e de sua profícua e vasta obra, zigmunt bauman buscará analisar a questão da profunda mudança na condição humana atual e suas conseqüências na forma como a narramos. por isso bauman escolhe conceitos como emancipação, individualidade, tempo–espaço, trabalho e comunidade como bases argumentativas deste livro, pretendendo, assim, explorar as sucessivas transforrmações (e aplicações) de seus significados hoje.
"não podemos mais tolerar o que dura" "não podemos mais fazer com que o tédio dê frutos". através da angustiada constatação de paul valéry, já no prefácio, cujo título é: "ser leve e líquido", somos apresentados a forma como zigmunt bauman concebe as tais mudanças que todos nós presenciamos, nessa que seria uma nova fase da história humana. para isso, bauman parte de uma metáfora bastante peculiar: segundo ele, temos vivenciado a transição de uma fase histórica onde se privilegiava a dureza, a estabilidade, a demarcação espacial, o peso, enfim, a solidez como características fundamentais. toda a nossa concepção de mundo, a forma como pensávamos e organizávamos as instituições e nos relacionávamos uns com os outros (as relações sociais, afetivas, culturais, comunicativas) almejavam o peso, a solidez. bauman define essa fase da história humana como modernidade sólida. mas as coisas têm mudado. e justamente por isso, bauman, nos apresenta o conceito de fluidez "como principal metáfora para o estágio presente da era moderna" (p. 8). neste novo estágio, a mudança, o fluxo, o movimento, a inconstância, a leveza são as principais características, daí o sociólogo chamá-la de modernidade líquida. " (...) a situação presente emergiu do derretimento radical dos grilhões e das algemas que, certo ou errado, eram suspeitos de limitar a liberdade individual de escolher e de agir. a rigidez da ordem é o artefato e o sedimento da liberdade dos agentes humanos. "(p. 17)
mas o que significaria liberdade nos tempos atuais? este conceito tão vastamente discutido (devido a suas bênçãos mistas) pelos filósofos modernos, bem como as consequências das vertentes sobre a emancipação das massas populares (suas possibilidades e ingerências) nos tempos atuais, ao contrário, esse tipo de questionamento não faz parte da agenda política. somos tão livres quanto os hóspedes em veraneio: até reclamamos se o serviço não é bem efetivado, mas esta crítica não é mais tão profunda. é uma crítica "desdentada", ou seja, "incapaz de afetar a agenda estabelecida para nossas escolhas na "política-vida".
em certa medida, o estabelecimento da cosmogonia moderna também significou o derretimento de paradigmas de eras precedentes. "tudo o que é sólido se dissipa no ar", já anunciavam os marxistas, há quase dois séculos, visando a superação das tradições estruturantes de então. mas naquela fase incial da modernidade, o espírito moderno propunha-se "(...) substituir o conjunto herdado de sólidos deficientes por outro conjunto, aperfeiçoado e preferivelmente perfeito, e por isso não mais alterável" (p. 9). ou seja, segundo bauman, apesar de inicialmente a modernidade significar a ruptura das tradições e epsitemologias anterior de derretê-los, a sedução dos sólidos, o apego ao que dura, ao concreto, ao estático, a insustentável solidez dos desejos visou apenas a substituição de algumas estruturas (sociais, políticas, culturais, cientificas, estéticas etc) por outras, igualmente sólidas, só que pretensamente mais duráveis. para se constituir uma nova ordem, os modernos de então trataram de derreter e profanar os sólidos pré-modernos, o que levou "à progressiva libertação da economia e de seus tradicionais embargos políticos, éticos e culturais. sedimentou uma nova ordem, definida principalmente em termos econômicos"(p.10) é interessante destacar que a rigidez dessa ordem instituída na modernidade, a ordem econômica que domina a totalidade da vida humana, que paradoxalmente resulta da progressiva "desregulação"e da "liberalização"dos mercados.
enquanto vivenciamos o constante processo de individualização dos sujeitos, a progressivo aniquilamento dos ideais anteriores de pertencimento social, atém mesmo no micro universo familiar, paradoxalmente, perpetuamos a incessante mecanismo econômico fundamentado nas liberdades do mercado, na facilidade da aquisição de bens de consumo, cuja duração abrevia-se cada vez mais. somos livres para comprar e isso parece bastar. basta?
ao ler bauman, reflito sobre como o nosso tempo mudou. embora tenhamos criado inúmeros dispositivos capazes de nos aproximar uns dos outros, encurtando distâncias, já não temos mais tempo para convivermos. também não nos reconhecemos nos espaços: somos hóspedes, eternamente em trânsito, apressados, desenraizados. estamos cada vez mais sozinhos, expostos. somos fluídos assim como nossas relações: as amizades, o amor, a aprendizagem, o lazer, o sexo, a comida... tudo, absolutamente tudo está regido por notas de individualismo, consumo rápido, desapego. será apenas isso que a era da instantaneidade do momento presente nos reserva: a leveza do substituível?
solidez e liquidez; peso e leveza são as metáforas do nosso tempo: o ser em transição entre o passado, já insustentável que milan kundera, em meio à controversa história de amor entre tomas e teresa, tão bem retratou, e a sedução do presente a que imergimos. tentando compreender como os moldes, os sólidos que foram quebrados desde a instituição do estado laico apenas foram substituídos por outros, igualmente cerceadores da liberdade individual, a modernidade fluida tem produzido seus próprios contrastes.
bauman representa, portanto, leitura indispensável aos que pretendem compreender o debate sobre os impactos do desenvolvimento tecno-científico e comunicacional nas relações humanas. meu caso. por isso, o diálogo com este autor, para mim, está apenas começando.
